Entre o saber e o não-saber: David Lynch e a experiência da montagem, por Rodrigo Ambroni

Este texto é a introdução de minha dissertação de mestrado, com esse mesmo título, defendida na Ufsc em 2016.

A dissertação completa, na Biblioteca da Ufsc, pode ser acessada pelo link

http://tede.ufsc.br/teses/PLIT0709-D.pdf

Link para o filme A Noite:

https://vimeo.com/98400006

Antes que nada…

O que és se deve à atividade que une os inúmeros elementos que te compõem, à intensa comunicação desses elementos entre si. São contágios de energia, de movimento, de calor, ou transferências de elementos que constituem interiormente a vida de teu ser orgânico. A vida nunca está situada num ponto particular: ela passa rapidamente de um ponto a outro (ou de múltiplos pontos a outros pontos) como uma corrente ou como uma espécie de fluxo elétrico. Assim, onde querias capturar tua substância intemporal não encontras mais do que um deslizamento, do que os jogos mal coordenados de teus elementos perecíveis.

Georges Bataille. A experiência interior.

 

RUBENS (VOZ OFF)

Aquele vulto que antes era apenas um
vulto do espírito de um gato preto,
agora cobre todo o meu corpo. Assim 
caminho ao mar, em plena luz do sol, 
não pela sombra, mas pelo escuro. E 
entre o céu e o chão, ambos me tocam, 
não há nada mais além do que um 
resistente desespero, tecido a fios 
de náilon e algumas lâminas afiadas.[1]

Quando comecei a preparação do meu último curta-metragem, intitulado A noite, havia algo que me inquietava e não tinha uma explicação. Essa inquietação sem explicação me levou a uma angústia que nunca antes tinha experimentado. Naquela época, ao fazer uma breve consideração sobre a primeira parte do meu trabalho, escrevi o seguinte: “A noite foi o título dado a um pequeno caderno de anotações e poesias em que, apesar de não saber onde me levariam, continham uma intenção bem clara: expressar os sentimentos mais profundos de uma pessoa que passa por um momento difícil, como por exemplo alguém que teve uma perda irreparável na sua vida. O nome pareceu-me interessante pela sua riqueza de significados. A noite pode ser tanto a parte do dia em que escurece e que por convenção chamamos de noite, quanto a escuridão, as trevas, o universo onírico, o que está oculto, o que não se vê. Também A noite porque recorrentemente as páginas do meu caderno eram preenchidas durante a noite, e o próprio ato de escrever requer uma certa dose de noite, de solidão, de serenidade e caos”[2]. Essas palavras, escritas na ocasião da proximidade do lançamento do filme e com a finalidade de criar uma espécie de diário sobre o processo de produção, antecederam em pelo menos dois anos o meu primeiro contato com A Suma Ateológica, de Georges Bataille; e agora, enquanto escrevo essas palavras com a clara intenção de falar sobre as transformações dos meus pensamentos, poderia dizer que se tivesse contato antes com a obra de Bataille todo o processo de realização do filme seria diferente. Mas isso seria uma lamentação que não lamento e não significa nada, porque na verdade o que quero é chocar esses pensamentos entre si e com isso abrir um pensamento que ainda não sei, mas sobre o qual tentarei ponderar.

Antes de continuar, gostaria de falar um pouco sobre como se deu o processo de escritura deste projeto de mestrado. Muito antes de começar a escrever o roteiro de A noite tinha uma cena fixada na minha cabeça que veio de uma canção de Charly Garcia, na qual ele diz: “el invierno fue malo y creo que olvidé mi sombra en un subterráneo”.[3] Essa imagem, de alguém que esqueceu sua sombra em uma estação de metrô, levou-me a escrever uma poesia e dessa poesia começar a escrever um roteiro chamado O relojoeiro. A dificuldade de escrever este roteiro foi imensa, e pela primeira vez resolvi adotar um método com que não sabia exatamente como operar. Eu tinha uma imagem – a de uma pessoa que esqueceu a sua sombra no metrô – e um poema, nada mais. Então estavam abertas as inscrições para o edital de cinema, e eu deveria dessa imagem e desse poema escrever um roteiro em pelo menos três meses se pretendesse me inscrever. Durante esse período de três meses não consegui escrever sequer uma linha do roteiro, mas acabei escrevendo várias outras poesias e textos que – naquele então ainda não havia percebido – tinham uma relação estreita com o roteiro.

Nas vésperas do prazo final para as inscrições de projetos no edital catarinense de cinema, ainda sem nenhuma página escrita, caminhava pela praia da Cachoeira do Bom Jesus. Era um dia de outono, chuvoso e de vento sul. Minha angústia era tanta que ao invés de estar escrevendo o roteiro, eu simplesmente caminhava e chorava pela praia deserta. Para mim não era um choro comum, era uma espécie de liberação, como se as lágrimas estivessem estancadas dentro de mim e estivessem me impedindo de escrever esse roteiro, ou, melhor ainda, como se as lágrimas me esvaziassem, me destruíssem e com isso me permitissem, no meio de minhas ruínas recomeçar. Lembro que naquele dia, ao retornar à casa, já era noite, e ainda com lágrimas escorrendo comecei a escrever as primeiras linhas do roteiro e parei somente na manhã do dia seguinte. Tinha então um roteiro e um projeto para apresentar. Tinha também – e talvez isso fosse o mais importante – chegado a um método de criação que envolvia muitos sentidos e muitas formas diferentes. O principal desse método, dessa operação por montagem de pensamentos, era justamente uma imprevisibilidade poética que aos poucos fui absorvendo. O relojoeiro se constituiu basicamente assim: uma cena: a de alguém que esquece a sombra no metrô. Várias poesias que de alguma maneira inexplicável falavam sobre esse alguém sem sombra. Um argumento: o de um relojoeiro para quem o tempo de vida passava de forma anacrônica. E eu (se é que posso dizer isso), ou seja, eu com todas as minhas sensações confusas, com todas as minhas experiências pessoais, com todas as coisas que estavam acontecendo na minha vida naquele então.

NARRADOR

Enquanto os rumores parecem indicar os
mesmos caminhos que lamentando pisei, as 
outras vozes que escuto me pedem calma. 
Essa engrenagem enferrujada, que ruge ao 
girar com dificuldades, não sabe porque 
trabalha. Não há mais nada para funcionar 
a não ser este tempo cronometrado de uma 
ausência forjada. Em algum momento as 
palavras vão se repetir nesse pequeno 
baluarte, nessa gaveta que escondo 
pedaços que me caem, para numas notas 
arrancar das cordas frouxas uma voz rouca 
de rosto sem linhas definidas. O que 
evoco faz as luzes tremerem no fundo do 
poço vazio, onde ecoam sombras que 
perfumam com o som mais fino as sensações
 mais cheirosas que tenho e perfuram todas 
as minhas gavetas.[4]

Não posso afirmar que foi aí que tudo começou, até mesmo porque não foi, mas posso me arriscar a dizer que foi a partir de O relojoeiro que comecei a lidar melhor com uma operação que me atravessava e ao mesmo tempo me servia. Essa operação era uma montagem que permitia um convívio de sentidos que me tocavam e que eu atravessava. Então surgiram novas transformações e novas angústias que me levaram a escrever A noite. Ao pensar agora sobre minha angústia durante o processo de escritura de A noite, que principalmente ocorreu durante a escrita do roteiro e do projeto, tenho a impressão de que posso agora tentar compreendê-la. Posso enumerar diversas motivações e contradições, que deveriam talvez partir de questões muito pessoais na minha relação com a vida que levava naquele momento, mas me interessa nesse caso falar justamente sobre alguns termos, utilizados nas linhas acima, que são muito caros a Bataille e que devem ser assinalados: projeto, explicação e angústia.

Para dar apenas uma breve noção, os editais de fomento à produção audiovisual no país requerem como condição inquestionável a escritura de um projeto. Este projeto, apesar de variar de edital para edital, precisa minimamente ter um roteiro cinematográfico acompanhado de várias explicações. Esse é um fator de extrema limitação por quase todos os ângulos que se possa analisar. Um filme como um projeto não passa de um produto fechado e com um destino em potencial: salas de cinema, televisão, festivais etc. Tanto é assim que no edital em que inscrevi o projeto de A noite eles tiveram a grande ideia de inserir mais um item na lista de exigências: público alvo. Se não sabia nem sequer como escrever esse roteiro, como aplicar uma técnica determinada para o que estava pensando e sentindo com relação ao filme que queria fazer, o que dizer sobre o público alvo do filme?

Eu me encontrava na seguinte situação: tenho uma ideia que se desenvolve através de uma montagem poética do pensamento, que se desenvolve a partir de imagens que ainda não conheço, que não se conectam a partir da lógica narrativa tradicional – nesse sentido as imagens não têm conexão – e sim a partir de sensações e sentidos que permanecem em aberto e que conforme vou avançando vão se abrindo para narrativas que ainda não havia experimentado. Por outro lado, o que parece uma abertura incessante tem também um caráter de projeto, no qual cada linha do roteiro que surge na tela do computador é também um fechamento, uma obstrução de todas as outras possibilidades que poderiam surgir durante o processo; até que no final, quando digo “tenho um roteiro”, o que estou dizendo na realidade é que tenho um fechamento (o que também não é exatamente assim, levando em conta que ainda falta filmar este roteiro, e isso leva a um desdobramento focado em escolhas de uma equipe, de locações, de atores, de figurinos, de cenografias, de equipamentos, de luz, de dias de filmagens e de uma interdependência de todas essas questões que envolvem muitas outras pessoas e por fim em quem receberá essas imagens e sons); mas esse fechamento é também a evidência de tudo aquilo que ficou de fora, a evidência de uma visão parcial, ou, falando em termos cinematográficos, o contracampo[5], aquilo que não se vê no enquadramento e que por isso mesmo está por todos os lados fora desse enquadre.

Então, agora posso perceber que minha angústia era vivida por formas diferentes, às vezes até em oposição. De um lado a angústia de transformar em projeto o que não pedia um projeto. Forças contrárias atuando uma sobre a outra e querendo se materializar, virar ação, virar projeto, um projeto deformado pela atuação dessas forças, informe. Por outro, a minha inquietude, a minha vontade de criação. Essas angústias conviviam em mim, comigo, e era o que me alimentava. A angústia de ter que saber, como uma positividade que se move ao centro, ao projeto; a angústia do desconhecido, do não-saber, e toda a sua negatividade que deseja romper com qualquer centro gravitacional; e a angústia da convivência entre tantas forças que se diferem.

Numa manhã fria, caminhando da minha casa na rua 44 esquina com 18 até a universidade na rua 51 entre 8 e 9, coloco para escutar no fone de ouvidos a música The night, do Morphine, em que Sandman canta:

You’re the night, Lilah. A little girl lost in the woods.
You’re a folk tale, the unexplainable

You’re a bedtime story. The one that keeps the curtains closed.
I hope you’re waiting for me cause I can make it on my own.
I can make it on my own.

It’s too dark to see the landmarks. I don’t want your good luck charms.
I hope you’re waiting for me across your carpet of stars.
You’re the night, Lilah. You’re everything that we can’t see.
Lilah, you’re the possibility.

Naquele momento, a passos firmes, enquanto olhava as feições das pessoas que cruzavam por mim na diagonal 74, tenho um pequeno despertar. Ao chegar no trabalho (nessa época trabalhava como montador do CEPROM, que é o Centro de Producción Multimedia da Universidad Nacional de La Plata) esboço o que seriam os primeiros passos da construção do roteiro de A noite. Aquela música, que falava sobre o inexplicável, sobre o que não se pode ver, sobre cortinas fechadas e sobre a noite, retumbava por meus pensamentos.

Nos anos anteriores a minha mudança para a Argentina, já havia escrito muitas coisas relacionadas àquele caderninho que menciono logo no início deste texto, e naquele momento comecei a edificar uma operação para mim complexa e dolorosa, uma operação que se dava entre o conhecido e o desconhecido, entre o inesperado e a espera. Essa edificação consistia em estar emaranhado em múltiplas camadas, que envolviam complexos estados de espírito que se misturavam entre mim e o personagem, entre minhas experiências, as impressões de minha memória e sensações confusas que me tocavam. Combinado a essas camadas, ainda havia o desejo de escrever um roteiro para um filme a partir de poemas que escrevi (e que viria a escrever) no meu caderno. O que tinha me proposto na época era avançar somente quando fosse tocado pelo inesperado, quando algo me fizesse intuir que uma ideia ou uma sensação ou uma imagem (que poderia surgir também através de um sonho) tivesse alguma relação com o projeto. Então o que tinha eram vários fragmentos dispersos que ainda precisavam se conectar, era preciso fazer escolhas sem saber. Era preciso esperar muitas vezes por um novo fragmento que faria algum sentido dentro desse processo de montagem que se propunha a estar na escuridão, na espera pelo inesperado. E foi daí que surgiram as incertezas que provocavam uma dolorosa angústia em mim. Hoje posso dizer que essa angústia também fazia parte dessa operação e que, talvez, era a base de todo o processo. Agora, pensando sobre essa operação, parece que tinha tudo sobre controle, mas naquele momento todo o processo ocorria em uma confusa espontaneidade.

Em cada avanço em direção ao projeto de fazer um filme, um saber, um preenchimento que abre um espaço novo que poderá ser preenchido. É então que retorno ao meu caderno, e nesse retorno, retorno também para dias confusos na Cachoeira, tão distantes de La Plata, mas tão presentes em mim. Retorno para um domingo de manhã bem cedinho, quando, em meio a tanta tristeza, resolvo assistir ao filme Anticristo, de Lars Von Trier, e logo após escrevo no caderno o que seria a primeira cena de A noite:

Numa tarde depois da vida, a natureza estranha continuará, como se nada tivesse acontecido. Todos os rostos ao redor, completos desconhecidos, não derramarão nenhuma gota de lágrima enquanto ouvirem o choro das sementes. O uivo que vem de alto-mar avisa a chegada da chuva, uma chuva doce e tranquila, que não pensa em provocar nenhum tipo de nostalgia ácida. A vida depois da tarde pode ser na varanda, balançando na cadeira e vendo o que chamamos de dia desaparecer imperceptível. Então o que enxergamos são formas que se concretizam pelos sons que nos acariciam os ouvidos, dizendo-nos de forma tranquila e serena que tudo permanece no mesmo lugar, exceto nós mesmos.

Para chegar ao farol, um velho pescador me disse que é preciso sonhar e deixar que a solidão me envolva com seus tentáculos úmidos e gelatinosos. Não foi preciso entender o que ele quis me dizer.

Que se transformaria em:

SEQUENCIA 01

Tela preta. Escuta-se muito baixo o choro de uma criança.




FADE IN



Vemos uma paisagem campestre surgir na tela. A câmera
passeia pelo local como uma visão subjetiva. Ela 
aproxima-se e passa através de quatro pessoas (3 homens e 
1 mulher) que estão no lugar. Essas pessoas encontram-se 
completamente imóveis, cada uma virada para um ponto 
cardeal diferente, todas com a cabeça baixa e com uma 
expressão vazia no rosto. Sobrepõem-se ao choro da 
criança um crescente som de vento e chuva. Quando essa 
sobreposição se completa vemos uma imagem, através de uma 
janela, da chuva caindo em um jardim florido. Escuta-se 
uma voz feminina sussurrando suave e serena:




VOZ EM OFF (RAFAELA)

Tudo permanece no mesmo lugar, 
exceto nós mesmos... exceto nós 
mesmos...

 

Sobrepõe-se ao som da chuva o som das ondas do mar e 
então vemos em um plano geral a imagem de um farol e o 
mar agitado ao fundo. Escutamos a voz de um homem 
sussurrando:




VOZ EM OFF (PESCADOR)

Para chegar ao farol é preciso 
sonhar com a solidão.




Vemos a imagem da varanda de uma casa de madeira com uma 
cadeira de balanço que se move sozinha.

FADE OUT

noite 1noite 2 noite 3

Foi a partir da escritura dessa primeira cena que compreendi qual seria o método. Precisaria remover o solo do meu caderno, produzir um roteiro a partir daqueles poemas. Misturadas a isso, muitas referências e a invenção de uma narrativa incerta, que em praticamente nada podia se apoiar.

Acontece que, pensando agora, do desconhecido fui em direção ao conhecido, que me conforta e insiste em desmobilizar o movimento do meu pensamento e fixá-lo em um centro, em um estilo de escritura e construção poética de imagens. Não passa de um estilo, e dele gostaria agora de me desfazer, de abandoná-lo em um labirinto vazio – que se constrói a cada passo em qualquer direção ao mesmo tempo em que desfaz o que construiu no passo anterior –; em um labirinto em que não existe nenhum minotauro e nenhum fio de Ariadne no qual se orientar. Até o labirinto deixar de ser labirinto e tornar-se apenas noite. A noite cheia de si. A noite, o impensável. A noite, o não-saber. A noite, este lugar intocável que, como me disse o Capela, garante a possibilidade do pensamento.[6] Este deverá ser o meu estilo. O de uma montagem que pensa a partir da garantia desse lugar inatingível.

Penso muito num pequeno trecho da Experiência interior, um trecho que só não é invisível por ser tão brusco, um trecho no qual Bataille fala que

no entanto, a experiência interior é projeto, queiramos ou não.Ela o é já que o homem também o é inteiramente através da linguagem, que, por essência, exceção feita à sua perversão poética, é projeto. Mas o projeto deixa de ser nesse caso aquele, positivo, da salvação e torna-se aquele, negativo, de abolir o poder das palavras, logo, do projeto.[7]

E é esse movimento, esse abrir e fechar a porta, diante do qual constitui sentidos. Mas ele é sempre negativo, é um movimento de desconstrução, que deve estar sempre atento e preparado para desfazer qualquer sentido que ele mesmo possa criar com a intenção de fixar. Esse estado de atenção e de estar preparado para a ação é um estado próprio do movimento – que é um movimento de fazer e desfazer sentidos – e do pensamento que está envolvido nele e por ele; é uma espécie de con-fusão entre o movimento e o pensamento que se move. E é a partir daí que gostaria de falar do meu método, que será desde já uma espécie de inventário das transformações do meu pensamento ao longo dos anos, emaranhados na minha experiência como cineasta e como pesquisador, mas principalmente emaranhados ao que chamamos de vida. E é por isso que agora penso com Bataille que a noite também é nada, é o lugar onde o saber se esgotou, ficou impotente, deixou de ver como se vê, deixou de ouvir como se ouve. É o lugar onde o saber tropeça, cai e já não sente o cheiro de nada que ele conheça. A perda irreparável que imaginava para o personagem do meu caderninho, é a perda de um centro fixo e imutável, é o deslizamento por um labirinto que está se desfazendo enquanto se faz. A noite , diferente do que pensava antes, não tem lugar, é o não-saber.

Microrganismos do tempo arrastam-se por toda a fundação da vida, devastam o que continua com um insistente apego.

O que eu posso com o que é inesquecível em ti?

O desejo da morte zomba com vento forte de medo do que não se experimenta, e golpeia as paredes úmidas de algum mar aberto. É preciso desenhar da forma mais obscura os fragmentos – que são tão palpáveis quanto o ar – até dizimá-los (e disseminá-los) numa boca seca caída na beira da praia: ler um pouco das sombras.

É no mar que termina tudo para quem carrega todos os fins.[8]

foto final

[1] Trecho do roteiro do curta-metragem A noite, escrito por Rodrigo Amboni em 2012.

[2] Este texto a que me refiro pode ser lido em https://anoitefilme.wordpress.com/algumas-consideracoes/

[3] Canção “Eiti Leda”, letra de Charly Garcia.

[4] Trecho do roteiro do curta-metragem O relojoeiro, escrito e dirigido por Rodrigo Amboni em 2009.

[5] Também chamado de extracampo.

[6] Colocação feita pelo Prof. Dr. Carlos Eduardo Schmidt Capela durante a banca de qualificação.

[7] Bataille, Georges. A experiência interior: seguida de Método de meditação e Postscriptum. 1953: Suma ateológica, Vol. I. Tradução de Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2016, p. 55. Devido às minhas limitações em ler em francês, utilizo-me desta tradução para o português, mas sempre com os devidos cuidados que devemos ter ao ler qualquer tradução.

[8] Trecho escrito por mim no caderninho que resultou no roteiro de A noite.

 

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publicado dia 26 de setembro de 2017.

Leia também a crítica de Flávio Dias sobre A Noite, publicada aqui na Punctum:

A Noite, de Rodrigo Amboni

 

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