Alguns comentários sobre o tríptico “Navio negreiro” de Di Cavalcanti, por Marcelo Ribeiro

Hoje visitando o Museu Nacional de Belas Artes encontrei o Tríptico “Navio Negreiro”, nunca tinha visto nada de Di Cavalcanti pessoalmente. Bom, tive duas impressões principais.

A primeira delas foi a comparativa. No acervo do museu é possível ver e criar uma correspondência com a história da arte brasileira até o início do contemporâneo, o período colonial é rico, obras fortes que dão pistas do que poderia ser a arte feita dentro de uma possível outra cultura brasileira. Contudo, no período colonial temos riqueza, mas não existe independência artística. A arte colonial, com exceção de Aleijadinho, me parece estar completamente presa ao conceito de arte sacra que existia nos conventos da Península Ibérica. É possível descobrir volumes impressionantes nas imagens sacras e na mobília do Brasil colônia. A arte colonial brasileira se tivesse prosseguido em sua estética dominante talvez tivesse gerado algo tão importante quanto o Barroco.

Em 1808 a família real chega ao Brasil, tem início o processo de metropolização da colônia. Um fato determinante para o estabelecimento do desenvolvimento nas artes é a chegada da missão francesa no Brasil em meados de 1816, nela vou destacar dois nomes, Jean-Baptiste Debret, o mais famoso, e Nicolas-Antoine Taunay, pintor brilhante que produziu quadros que mantinham a força e o frescor das primeiras pinturas neoclássicas do século 18. Somada à influência que os franceses dispunham também havia a necessidade de reinventar e sistematizar o ensino da arte no Brasil.

Depois de alguns anos de burocracia e indecisão nasce a Academia Imperial de Belas Artes (que viria a se chamar na época da república Escola Nacional de Belas Artes). Nela foi sistematizado o ensino das artes no país, além disso foram trazidos quadros e moldes de esculturas da Europa. A intenção era proporcionar ao aluno contato direto não só com os tipos de escolas que faziam parte da história da arte, mas também criar uma relação direta com o contemporâneo. Com investimento pesado e com uma tradição bem sedimentada no cenário nacional é possível dizer que no reinado de Pedro II, a escola se alinhou de vez com a tradição acadêmica contemporânea do século 19.

A Escola Nacional de Belas Artes foi responsável pela formação de nomes muito expressivos como foi o caso de Victor Meirelles. Meirelles depois se tornou professor na escola, dentre seus alunos podemos destacar Eliseu Visconti. A evocação comparativa é sem dúvida uma das bases de qualquer modernismo, ver a obra de Di Cavalcanti é de algum modo ter de lidar com a tradição da arte no Brasil.

A segunda impressão tem haver com uma ideia que pretendo investigar. Me parece que somente com o modernismo ou com o advento de possibilidades modernistas o Brasil consegue ter uma arte nacional. Aqui, existem alguns problemas. É óbvio que o conceito de independência é algo próprio do pensamento modernista, e é nesse mesmo modernismo que aprendemos que não é possível existir qualquer arte pura ou nacional. Contudo, está aí a questão, o modernismo foi muito conveniente para o Brasil entender o que existia em sua arte, Di Cavalcanti entendeu que não existia uma estética pura, usa isso para interagir com a tradição pictórica do Brasil. Tradição essa que está longe de ser pura, mas que operava como se fosse. Ele e outros vanguardistas criam o choque entre tradição que busca em si o europeu e tradição que não contém em si o europeu. Nasce um meio termo, afinal a arte do Brasil é esse meio – meio como mistura de tempos.

Tenho certeza que no modernismo existe uma reunião de tempos estéticos. O olhar sobre as formas é mais consciente dentro da estética de Di Cavalcanti. É inegável a força do moderno dento da cultura brasileira, o choque ético do modernismo foi tão forte que deixou sua marca nas obras de pintores excelentes, por exemplo Victor Meirelles, é quase impossível ver Victor Meirelles sem evocar o contemporâneo – contemporâneo é filho do moderno. Todavia, é o mesmo olhar moderno que faz ver o quanto Victor Meirelles e outros são brilhantes; neles não há nada de unificador, pelo contrário, existe um monte de bifurcações.

publicado 06/08/2017

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