Coringa – Crítica, por Malcolm Numei

  • Uma, talvez não-muito-ortodoxa, crítica do novo remake de Taxi Driver, estrelando ele do filme Ela.

Nos contos de Robert W Chambers, existe um objeto mágico recorrente. Uma peça de teatro, chamada O Rei de Amarelo, e todos os que leêm seu segundo ato, enlouquecem.

A ideia de que um conjunto de palavras ordenadas de certa forma particular, podem, seja por seu conteúdo ou estética, enlouquecer quem as lê é fascinante; e, tenho pensado, possível.

O primeiro exemplo que me veio a cabeça, pensando na característica estética da obra, foi o “clássico” documentário de Leni Riefenstahl, O Triunfo da Vontade. A suposta obra prima da maldade, que utiliza das mais refinadas técnicas audiovisuais de seu tempo para passar uma propaganda do partido nazista. Este filme, quando aparado pelos ideais e culturas da Alemanha na década de 30, pode ter efeitos desastrosos. Mas quando eu o assisti, no meu segundo ano de faculdade, com metade da tela do computador ocupada pelo documentário e a outra metade com uma rede social, utilizando meu celular frequentemente, a obra prima de Riefenstahl me pareceu apenas um monótono filme sobre idiotas gritando em alemão.

Seguramente, este não foi o jeito que a diretora imaginou que seu filme seria apreciado. Mas como o bom estruturalista francês nos dirá, pouco importa. Passei incólume pelo Triunfo da Vontade.

O contexto cultural e minhas escolhas como espectador ditam a estética do filme. Então, consideremos conteúdo. Se existe tal obra prima da maldade, ela não é constituída por sua estética mas por seu conteúdo. Um pedaço de informação que nela contido, quando codificado e entendido pelo leitor, o enlouquece.

Alguns casos como estes entraram na mitologia da cultura popular. Charles Manson acreditou ter encontrado mensagens secretas nas músicas dos Beatles que convocavam para uma guerra racial. Chapman encontrou um chamado para atirar em John Lennon, ao ler A Apanhador No campo de Centeio (livro publicado quando Lennon tinha 11).

Mas o efeito não é consistente. Com a popularidade que os Beatles têm, se sua obra fosse mesmo amaldiçoada, as consequências teriam sido catastróficas. Estes homens estavam apenas frágeis o suficiente para serem afetados, buscando em qualquer lugar algo que justificasse seus ideais.

Se separarmos dois conceitos distintos, o de obra e texto – obra como o objeto cultural (um livro, um filme, etc) e texto como o efeito particular que ocorre quando o objeto cultural é apreciado por um espectador (quando lemos um livro) – não parecem haver obras amaldiçoadas, mas sim textos.

Textos são, naturalmente, imprevisíveis. Quase qualquer leitura pode ser tirada de determinada obra, dependendo das predisposições do leitor. 

Nós, como leitores de um texto, somos detetives naturais. Vamos encontrar pistas e vamos solucionar o mistério, nem que para isso tenhamos que plantar evidências.

Mas é certo que – apesar de quase qualquer interpretação ser possível -algumas interpretações, se não mais certas que outras, são com certeza mais prováveis. É mais provável que a Apocalipse Now seja sobre a loucura na guerra do Vietnã do que sobre o Facebook, especialmente considerando quando o filme foi lançado.

E, ainda nas estatísticas da interpretação,  um filme violento, que justifica a violência, lançado em um período de crise de valores (como o Triunfo da Vontade) terá uma interpretação mais provável de suscitar do que outras.

Dito isso, ainda não sei se gostei de Coringa, do Todd Phillips. Como um thriller psicológico, é interessante. Mas há muito ainda a ser dito sobre filmes que justificam violência e caos de homens brancos levados a margem da sociedade pelo “sistema”.

Especialmente em tempos onde homens brancos sentem, por mais distante da realidade que seja, que estão sendo marginalizados pelo sistema.

A solução, bem como o problema, raramente são encontradas em um filme de Hollywood.

Para bem criticar um filme (nosso objeto, no caso, o Coringa) é preciso criticar o momento cultural em que o texto, e não a obra, é apreciado. Pouco importa agora os sentimentos que um filme gerou em 1940, mas sim os que ele gera agora.

Em 10 anos, Coringa vai ser outro filme. Hoje, ele é um caso interessante dos efeitos que o blockbuster tem na cultura de massa. 

Blockbusters, que vivem de provocar catarse em seus espectadores; de mostrar 20 vingadores juntos batalhando Thanos em uma explosão catártica. O que acontece quando a catarse vem de um homem dançando, ao som da música, depois do brutal assassinato de diversas pessoas?

Se o coringa vier a justificar as ideias violentas de indivíduos, quem será responsável? Os espectadores? O filme? A performance de Joaquim Phoenix? Ou, como o filme culpa, um “sistema” genérico? 

Se os autores estão mortos, eles podem ser responsabilizados? Suas intenções com as obras são, na prática, inúteis – pois o espectador tem controle sobre sua fruição. Tendo boas ou más intenções, não são elas que determinam o texto.

Somos nós e nosso contexto cultural.

Não existem obras malignas como O Rei de Amarelo, existem contextos. De manipulação, de medo, de ódio. Muito mais difíceis de confrontar do que duas horas de cinema.

No fim, eu daria três estrelas e meia para o filme do coringa, tem seus momentos.

Para o contexto cultural de exceção em que vivemos, uma estrela de cinco.

Referências bibliográficas.

Nenhum filme norte-americano vai me fazer correr atrás das edições específicas dos livros, então, ABNT que me perdoe.

As informações dessa crítica são tiradas dos textos de Roland Barthes, em especial a morte do autor; Jacques Rancière, em seu incrível O Espectador Emancipado; Os textos de Mikhail Bakhtin; Nos contos de Robert W Chambers, e naquele conto mó daora do Borges, a Morte e a Bússola.

Malcolm Numei é redator deste texto. Tem ensino superior incompleto em Cinema e foi recusado pela folha de São Paulo, Revista Piauí e Cinco Quatro Um. Os convites da Veja, contudo, não param de chegar.

Editado Por Bernardo Schmitt

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