Difícil falar sobre Moonlight, por Marcelo Ribeiro

Moonlight é a possibilidade dada a Chiron de reviver um momento único. Quando assisti ao filme, na mesma hora resolvi escrever sobre ele, só que ao mesmo tempo vi que seria difícil escrever alguma coisa que acrescentasse potência ao que está na tela, me parece tudo muito forte.

Tento entender o que faz com que as pessoas criem expectativas sobre a profundidade psicológica do personagem quando tudo já está dito, as verdadeiras relações dos personagens estão nas brechas que eles deixam dentro daquela busca por um pouco de ar puro. O real interesse do filme não está na narrativa bem contada por profundidades e atuações dos personagens. O que faz Moonlight ser possível é a tensão que se passa durante todo o filme a respeito das brechas que vão acontecer, a vida de Chiron é desenhada para a libertação, porém quase não existem brechas no mundo dele. Ele passa a vida toda sem respirar – a metáfora da pia com gelo que se repete algumas vezes.

Ao final da narrativa existe um rascunho do que poderia ser a libertação, mas Chiron está dilacerado. Impossível haver um final para ele baseado na liberdade. A repetição desse momento único serve mais como possibilidade de reaver a subjetividade (personagem de Kevin) que ele conquistou relativizando suas famílias do que o livrar-se de vez da chaga. O filme deixa bem salientado, apesar de não haver nenhuma situação assim no bairro, que liberdade tem haver com justiça. O problema é que ninguém consegue ser justo, Juan não pode deixar de vender drogas, a mãe de Chiron não consegue parar de usar drogas, Kevin não pode deixar o personagem. Chiron não pode ter liberdade, nunca teve justiça.

Falei sobre a profundidade psicológica buscada por muitos espectadores para afirmar que isso é pobre se levarmos em conta a potência do filme. Tornar o personagem um símbolo de qualquer coisa é tachar uma potência que está na tela com engodo ideológico. Posso acrescentar potência, talvez, fora da tela vendo que Chiron está além da tela e do filme belo (no sentido canônico ocidental). Essa é a realidade de qualquer um, no fim o personagem precisa lidar com brechas que são muito raras e fazer as pazes com a subjetividade, viver sem ela é perigoso – não é vida.

O filme de Barry Jenkins não deixa a desejar em nada, nenhum aspecto é subestimado. Os personagens são baseados na expressão corporal, todavia circulam bem nos diálogos quando é necessário que a fala sustente a narrativa. A forma da música nas cenas é explicitamente influenciada pela estética do videoclipe e o filme não esconde isso em momento algum. As lentes são carregadas assim como as cores do filme. A direção de arte me parece sóbria.

Vale notar que o lado de fora da realidade de Chiron nunca aparece, ele é enclausurado. O mundo dele é o bairro. Também é importante destacar que não existe nenhuma contraposição mostrando Chiron se deparando com alguém de fora, talvez um rico ou algo assim. O filme mantém os aspectos causadores dentro da realidade do personagem. É claro que o personagem é o que é porque existe um mundo de fora, além do bairro. Todavia, isso é muito claro todo mundo sabe, como o filme está arquitetado seria burrice fazer contrapontos ou encher de diálogos sobre a situação deles. Barry Jenkins demonstrou capacidade para lidar com um tema extraordinário e manter vida dentro da forma. Não subjugou nenhum ou outro.

publicado: 06/08/2017

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