Em Santa Catarina uma Pérola, por Bernardo Schmitt

  • Notas sobre a greve na UFSC, com ajuda de uma entrevista gentilmente cedida por Lucia Antônia, do movimento UFSC contra o Future-se .
  • Imagens gentilmente cedidas por Italo Zaccaron

Encontrei Lucia, para entrevistá-la, às onze horas no velho centro de biologia. Nos cumprimentamos e ela me levou até o Centro Acadêmico, onde poderíamos conversar. No caminho, passamos por um homem, alto, branco, careca, que pintava a parede do centro, tampando uma pichação que lia “greve geral”. A primeira coisa que pensei foi “por que eles são sempre carecas?”

Ela parou para conversar com o homem. Perguntou por que ele estava aqui, se ele era terceirizado, se havia sido contratado pelo centro. Não, ele disse, ele mesmo comprou a tinta, o pincel, e veio pintar. Pareceu importante para ele ressaltar que havia comprado a tinta com o trabalho dele.

A este ponto eu estava bastante assustado, Lucia não. Ela fez mais algumas perguntas e nós seguimos nosso caminho.

Nos sentamos à frente do centro acadêmico, sob algum vento, e eu lhe fiz a primeira das minhas perguntas.

São todas genéricas, e você, leitor, poderia encontrar respostas facilmente se o quisesse. “Como a greve começou?” “o que é o future-se?” “Como tem sido a recepção?”.Mas o que me pesa agora, é perceber que a pergunta mais importante, é a que eu não fiz. 

“Por que entrar em greve?” 

Estamos em um país  cada vez mais polarizado, onde um lado sempre será contra as ações do outro, independente de qual seja, meramente por se tratarem de “ações do outro”. A extrema-direita defenderá o indefensável, acreditará no inacreditável, fechará seus olhos para tudo que for contrário às suas ideias, seja real ou não.

Argumentos e fatos parecem agora, para este que escreve, armas de um distante passado democrático. 

Quando os alunos da UFSC decretam greve, por verem esta como a melhor opção contra os ataques à educação superior no país, os que digitaram 17 a um ano atrás verão no movimento apenas mais uma comprovação de suas ideias. Por que é o que eles sempre veem, em todos as ações da esquerda, uma ação inimiga justificando seus ideais.

A crença na extrema-direita é um ato de fé, que fecha os olhos de seus seguidores e os pede para acreditar, fielmente, na sua salvação. Os que não compactuam: infiéis. Pois como a palavra de um sacerdote uma vez foi lei, agora é a de um político, de um juiz, de um youtuber. A greve não vai mudar a visão da extrema-direita (nada mais parece mudar).

Então, porque entrar em greve? Essa foi a pergunta que eu não fiz, mas que Lucia respondeu durante toda a entrevista, e só agora eu entendo.

A greve na UFSC  não é uma paralisação da universidade, é uma pequena inversão de papéis. Veja, leitor, e permita-me lhe explicar. 

A universidade tem três frontes de ação: Ensino (a formação dos alunos), Pesquisa (a produção de conhecimento) e Extensão (a ação de levar o conhecimento para a sociedade). Esse último, muitas vezes negligenciado pela comunidade acadêmica em troca de seus dois irmãos anteriormente citados.

 A greve busca, entre outras coisas, equalizar um pouco a situação. Paralisando o ensino para, em troca, mover a extensão. Os alunos de direito vão para a praça oferecer auxílio jurídico; os estudantes das artes promovem eventos culturais; os cientistas vão divulgar suas pesquisas. 

Quando gritam na rua para os grevistas “vão estudar!”, eles falham em entender o propósito da universidade pública. Pois não se trata de uma educação gratuita. O custo para se estudar na UFSC não é monetário, é moral. Os que aqui entram, estão em débito com a sociedade e devem pagar em conhecimento.

Pagam em argumentos e fatos, uma moeda cada vez mais desvalorizada. O Brasil hoje já não vê mais como vantajosa a troca de dinheiro por conhecimento, que é, em sua essência, a universidade no capitalismo.

Lucia me falou do estresse que é a greve, o cansaço. E sobre uma mentalidade individualista, não vale a pena. Seria melhor não fazer greve, se formar o mais rápido possível e deixar que os próximos sofram.

Mas o preço deve ser pago. O conhecimento deve ser entregue à sociedade. Deve ser gritado em seus ouvidos tampados.

Querer que os cortes acabem é, no fundo, querer que a sociedade volte a dar valor ao conhecimento. E para isso, os alunos se tornam agora professores. Não professores universitários, mas professores de ensino fundamental. Que entendem que, mesmo que seus alunos odeiem a educação, a escola e o conhecimento, ainda assim precisam aprender.*

Eu terminei a entrevista e me despedi de Lucia. Fiz meu caminho de volta pra casa. Mas primeiro eu procurei por aquele homem com o pincel e a tinta. Eu queria lhe fazer algumas perguntas. Ver o outro lado da história, como diria aquele velho jornalismo. Qual seria a opinião dele? Eu posso formular dezenas de ideias baseadas nos meus preconceitos, mas eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.

Então, voltei para onde eu e Lucia havíamos o encontrado, mas ele não estava mais lá. No lugar, sobrara apenas uma parede branca. O homem não escreveu com seu pincel, não deixou nenhum traço de que esteve ali, não disse mais nada.  Só apagou o que veio antes e partiu.

*Eu não gostaria que esta frase tivesse soado tão autoritária. Que os que entendem mais sobre teoria da educação do que eu, me corrijam.

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