Ensaio em Variabilidade Linguística, por Eduardo Quirino

Nota do Autor/Editor, Sr. Quirino: A seguinte peça de texto tem por objetivo primário uma crítica a indústria da objetificação da mulher, entre outras críticas

Nota do outro editor da revista, Sr. Schmitt: Se você tem que começar o texto com uma nota se justificando, é por que lá vem bomba…

Já havia se passado meia hora quando Yan chegou, era o último de três colegas, críticos profissionais, interessados em discutir seu último objeto de crítica. Ao chegar, Yan sentou-se apressado e pediu desculpas pelo atraso. Escolheu uma dose de uísque do cardápio e enquanto esperava ser atendido perguntou:

–Então, o que acharam? Mais do mesmo? Algo de novo?

–Creio que há partes novas e instigantes nessa bela peça. — respondeu Bela. Bela era a mais formal e famosa dos três. Suas críticas uniam um tom ácido e sarcástico a uma classe compreensiva de forma que era difícil descobrir o quanto ela gostava ou desgostava de algo.

— Seu vocabulário de apreço e de desgosto é idêntico, minha cara.– afirmou Leonice, com um prazer nos lábios. Leonice era também fã da crítica sarcástica, mas seu tom era sempre mais claro e direto. Digamos que em termos de piada ela preferia explicar a mostrar.

— Talvez para você, provavelmente para os outros. No entanto, essa afirmação é honesta. Eu…

            O garçom veio tirar-lhes os pedidos, apenas Yan não estava servido ainda e pediu seu uísque novamente. Assim que ele saiu, ela continuou:

–Eu de fato encontrei novidades…

–Nessa não tão bela peça– adicionou Yan em um tom risonho

–Nessa não tão bela peça– concordou Bela, frustrada pela leitura correta do amigo. Ela continuou– O cenário era interessante, realmente incomum.

–Uma aula unindo astrologia com ufologia é algo bastante novo, de fato. — Concordou Leonice.– Inclusive, mais notável ainda, os dois minutos gravados da aula foram escritos de forma coerente, não eram palavras aleatórias como de costume.

–Também me intriguei por isso– concordou Yan. Sempre mais calmo e ponderado, falando reativamente. Suas críticas eram quase sempre reações a outras ou escritas supondo o que tais poderiam dizer, tornando-o um astuto argumentador, contudo alguém majoritariamente calado, ainda assim, neste momento, descansado e com seu recém-chegado uísque escocês ele estava mais animado que de costume.

— O que acharam do gatilho do filme? — Instigou novamente

–Tacitamente convencional… garota faz pergunta na aula com voz erotizada, professor e assistente se alternam na resposta, cantada aos dois. Nada de original nisso, nem bem executado, aliás, a atriz fez uma voz muito grave e com frases longas demais, o erótico virou quase sexy.– Bela raramente era tão direta.

–Qual seria a diferença do erótico para o sexy? — Perguntou Yan provocando

–A diferença de um funk para um concerto de sax, obviamente.– Respondeu sem ter que pensar.

–O sexy geralmente é bem vindo, entretanto também achei que o erótico seria melhor nessa fala. Afinal, o threesome não foi entendido ali como uma declaração da descoberta da mulher do seu próprio instinto selvagem e bissexual, ali era só a manifestação crua de uma mulher ciente e desejosa de seu próprio desejo. Isso foi bem retratado na cena do fellatio, não acham?– Diz leonice, entre um longos goles do seu vinho branco italiano.

–Sim, sem dúvida, foi o que eu achei também– respondeu prontamente Bela.– Nesta cena e na que ela despe os dois. Ela o faz com grande volúpia e conhecimento, não era uma donzela e se orgulhava disso. Aliás, a Hellory foi excelente na felação, o barulho úmido e forte da sucção e a força e profundidade que ela atingia em sua garganta. Trabalho profissional, sem dúvida. Ela passou toda a certeza necessária de que aquilo é falso. — Concluiu.

–Sempre bom deixar claro que é falso. As mulheres do mundo agradecem.–Leonice diz.

–Naturalmente– concordam brevemente ambos.

–O que dizer da depilação? Me pareceu uma clara tentativa de criticar a sociedade. A moda não devia nunca ser dolorosa. Pêlos são naturais e belos– Bela falou desapaixonadamente.

–Eu interpretei de forma diferente. Como ele, igualmente, deixava seguir o crescimento natural dos seus pubianos e a outra atriz, a namorada dele, aliás sem inspiração, não o deixava. Creio que o diretor quis mostrar que a aluna estava mais adequada à penetração com ele que o contrário.– disse a outra.

–A cor do sutiã da aluna combinava com a camisa dele, acho que isso corrobora sua ideia– disse Yan em resposta.

–Pode ser– concedeu Bela.

–A atriz… a… Hotty Girl do Fodidos e Pelados, como era o nome dela mesmo?– Perguntou agora Leonice

— Sasha Lilás– Respondeu de pronto Bela

–Isso… Ela não estava 100% ali, quando ela chupou a Hellory foi uma língua bem feita, parecia realmente tocar o clitóris da outra, algo estranho. Não se encaixou na personagem. Inclusive, parecia que ela realmente entendia do que falava na aula. Será que ela se preparou para o papel?–Continuou.

–Olha, pelo histórico dela, acho que sim. Ela geralmente faz uma coisa meio realista, ela parece realmente gostar do sexo ali. Isso me incomoda também.–Interveio Yan

–O cara estava bem, o… George Antagrossa– Retomou ele, depois de um gole forte que o fez fazer uma careta.

–Ah sim, ele sempre acerta bem o papel. Sempre violento e com cara de ex-presidiário em bordel. É realmente um ator muito bom. Às vezes, inclusive, eu acho que ele penetra ao ritmo de uma Bossa Nova ou um Jazz, uma ordenação desordenada. Acho bem poético o metimento dele. Acho que combina com o tamanho peniano mais clássico que ele trás, as veias dão uma estética bem completa, gosto bastante do trabalho dele. –Afirma Bela

–Sim, Sim, de fato. Ele é muito bom. Ele tava naquele “Naufragay” não?– perguntou ele

–Sim, era ele mesmo. Interpreta bem com homens também. Bem lembrado.– Concluiu Leonice que segue falando em tom de confissão:

–Agora a pergunta que precisamos fazer: o Alienígena chegar pra dizer a verdade, quase que com uma  inspiração do cientificismo da década de 40. Achei bem curioso. A frase: “Me mostrem o buraco de minhoca que eu insiro a nave-mãe” fica entre a estupidez e a genialidade, não?

–Genialidade– Diz Yan

–Estupidez. –Diz Bela simultaneamente. O que leva os dois a trocarem um olhar divertido, as críticas deles geralmente discordavam em algum ponto crucial.

–Vamos concordar em discordar. –Disse ela, como sempre faziam.

–Acho que o alienígena poderia ter ficado para uma parte dois, uma continuação. Afinal, abdução alienígena já é, em si, altamente pornográfica.– retoma Leonice

— Ah, não. Já é muito clichê.– Disse secamente Bela.

–Sim, concordo. Mas todo o clichê pode ser reinventado.–respondeu

— É, mas…sabe? às vezes já deu o que tinha que dar. –comenta ele pensativo

–É, realmente. Você está certa. — diz Leonice, olhando séria para Bela e depois baixando o olhar para a mesa onde encontra seu vinho e bebe-o.

–Para acabar a parte séria dessa conversa, e o diretor?– puxa Yan, depois de também beber um gole.

— Eu gosto dele, o Drake Montana… Ele balanceia bem o filmar da cena com a introdução de novos elementos do ambiente. Ah.. falando nisso, a Piada com Cérebro foi muito boa nesse.–fala amavelmente Bela, num tom que não permite saber se ela queria dizer o que dizia ou o direto contrário. 

–Sem dúvida, sem dúvida. O que me preocupou no vídeo foi a sonoplastia. O George indo com tudo e o barulho pele-a-pele parecia a de um vídeo japonês sobre alunas de colégio.– Responde Leonice, interpretando literalmente

–É, realmente… começa Yan

— Eu digo, porque o Drake é um diretor gabaritado, ele passeia bem pelos diversos estilos. Foi um erro, mesmo.–Interrompendo ele.

–Concordo. — Bela diz, olhando para Yan com certo divertimento que ele não sabia de onde podia vir

–O que eu não gostei na filmagem foi que ela pulava muito, ia da genital sendo penetrada para a cara da astróloga para o alienígena pro ufólogo… Acho que ele queria passar a mensagem de que não importa gênero, raça, planeta… Sexo é sexo, no entanto eu me senti sendo sacudida, como se eu estivesse na cama. E eu prefiro quando a cena me é mostrada como se eu estivesse assistindo de fora, do ponto de vista do corno, ou algo assim.– Afirma Bela, num tom sério e literal.

–Isso me incomodou também. — Responde Leonice

–A mim também– conclui ele. E com isso eles se olham e ele pergunta– Mais alguma coisa?– As duas respondem com um meneio de cabeça e ele faz sua última pergunta.

–Quando vão publicar a de vocês?

–Semana que vem.– Responde Leonice.

–Eu já escrevi a minha, vou mudar umas coisas editar, corrigir e publicar amanhã já.–Afirma Bela

–O meu será semana que vem também. –Conclui ele.

–Viram o que está acontecendo no nosso cenário político?– Pergunta ele depois de passar os olhos por uma televisão em que passava o jornal.

–Ah, não. Isso é muito besteira pra ficar assistindo.– Diz Bela

–Às vezes, eu acho que você está certa.–Finaliza ele. Parando para pedir mais uma dose.                                                     

Editado por Eduardo Quirino

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