Memorial de um Ufscão, por Catatau

  • Ou, as histórias que nossos veteranos não contavam.
  • Um conto escrito por um dos mais notórios ufscães que já andaram por este campus

Já não me sinto muito diferente dos velhos prédios ou das árvores desse campus. Eu os conheço todos, estou aqui a mais tempo do que alguns deles. Um velho cão de guarda, fico deitado o dia todo ao sol. Queimando.

Não me disseram que seria assim quando entrei. Ninguém me disse que aqui o tempo passa diferente. As paredes num dia pichadas, no outro pintadas de branco e logo depois, pichadas novamente. Que aqui seis meses são, por vezes, mais que um ano.

Me lembro agora daquele velho cão que eu vi quando era um filhote, em meu primeiro semestre aqui. Os pelos brancos, andando sempre com a cabeça baixa, as orelhas caídas. Os mesmos passos que fizera no dia anterior e faria no seguinte. Seguindo sempre aquele mesmo velho osso.

Ele foi embora, conseguiu o que queria, e voltou para o canto qualquer de onde vinha. Entrou, como todos, sem saber que o preço que se paga nessas bandas é bem mais alto do que te falam.

Agora eu sou aquele velho cão, como tantos outros que vieram atrás de mim. Vendo todo dia os novos filhotes que andam uivando inocentes pela noite. Eles me olham, jurando nunca se tornarem como eu, sem saber que eu fiz todos os mesmos juramentos anos atrás e vez e outra fracassei.

Perdoem um velho por ganir tão alto e não confundam esses latidos desesperados por sabedoria. Nem troquem essa melancolia de dias passados por uma aversão a juventude. É apenas que, como todo cão aqui logo percebe, nem todas as feridas podem ser lambidas.

Pelos longos e cheio de pulgas. Confuso e abandonado, sem ter para onde ir. Não me culpe se, por apenas alguns minutos, me deito ao sol e, de olhos fechados, sonho.

 Sonho não em sair, mas em entrar novamente. Uivando.

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