Memórias Escolares, de Luiz Serigheli

  • Uma poesia em prosa sobre a experiência do autor no cotidiano do colégio.

Viagem longa, espaço pequeno, todo dia um vai e vem. Quando vai, triste ou feliz. Quando vem, feliz ou triste. Rabiscos e riscos no meio do caminho, uma forma, uma letra, uma palavra, uma frase, um texto, um nada. Caminho que empolga, mas que de empolgação dá de cara com a parede.

Parede dura, gélida, imóvel, imponente. Parede que chuta, soca, que bate e rebate como bem entende, na medida do possível. Parede presente, que não se move, não sai, perpétua e intermitente. Parede que não machuca só o corpo, mas também os sentimentos, os desejos, os anseios, a mente, a gente.

Gente de todo lado, de todo canto, reunidos num ponto só. Tudo farinha do mesmo saco. Todos formados na mesma forma. De longe ou de perto, só mais uma carteira, mais uma cadeira, mais uma sala, só mais um. Entre um olhar e outro, um olá e outro, um rabisco aqui, um risco lá, mais um ser ali, mais uma vida acolá.

As vidas passando sem parar, se entrelaçando, se separando, tão próximas e da mesma forma tão distantes. Se prendem, se escrevem, se expandem, se beijam, se gozam e ao mesmo tempo se odeiam, se vêem, se amassam, se separam. Agora lambe, chupa, sobe, desce, entra e sai. Sedentos, loucos, depravados, uma estranha liberdade que nos aprisiona. O prazeroso gosto do saber que anda ao lado da noção da ignorância que nos dói. Movimento antagônico que nos carrega rumo a paralisia.

Leio e escrevo, no papel digo tanto e digo coisa nenhuma. Grito, esperneio, danço e canto. Paro, penso, aquieto e relaxo. Reúno desde a menor partícula já vista até o maior corpo celeste observado em uma só página. No simples traçar do carbono e a folha, na comunicação única que se escreve para si, para o mundo e para ninguém. E acaba por marcar não só um caderno, mas também a pele, o corpo, a alma.

Meus traços que dispersam o vazio do conhecimento, meus preenchimentos, transições e vácuos. Toda a mudança proporcionada no externo, que influencia diretamente, quiçá até mais, no interno. Numa ação heróica e moribunda, um legado de poeiras ao vento, que destrói ao mesmo que fomenta uma ansiedade que é infinita, e também a motriz, do ato de ler, escrever, aprender.

Luiz Felipe C. Serigheli – Livre ser, fascinado pelo universo, a vida e seus desdobramentos; Quando inspirado|desgastado pelo sistema artifica-se para revolucionar a si e o mundo.

Editado por Eduardo Quirino

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