O Abismo, por Marcelo Ribeiro

“O Abismo” é um filme tão melancólico quanto “Signo do caos”, feito durante época de ruptura para o diretor (inclusive, é posterior ao insucesso de mercado da Belair).

Esse filme, o contexto histórico e também os textos produzidos na época pelo autor são uma excelente pista para quem quer entender porque Sganzerla se flagelava tanto por não conseguir ter acabado muitos projetos. Ele sabia que nenhum diretor fica isento de responsabilidade sobre os filmes que não fez. É o contrário, em uma filmografia os filmes que não foram feitos são colocados em pé de igualdade com os filmes terminados. Sua carreira assim com a de Welles é atravessada por numerosos fantasmas que nunca apareceram totalmente, mas que nunca vão sumir por completo.

A falta de comprometimento com uma identificação estilística que apresente um projeto de futuro é um dos trunfos de Sganzerla em “O Abismo”, o limite material claramente restaurou a carreira de Sganzerla após o exílio, no filme não existe incômodo com qualquer moralidade; a irrealização do futuro foi um dos benefícios que tornaram o promissor diretor de “O bandido da luz vermelha” em um homem que teve que viver uma reflexão mais pesada que a simples frustração de não conseguir. Sganzerla conseguiu, mas teve que conseguir sozinho. Pelo que tudo indica em seus textos a expressão teve pode ter sido uma obrigação (ele foi obrigado) ou também – o mais provável – foi a única opção ética possível. “O Abismo” assim como “Signo do caos” tem cara de último filme por que lida com uma opção ética sem volta e sem continuação; o último filme foi a única opção cabível para um diretor que pensava em filmar onde a ética não se aproximasse do projeto temporal de futuro.

Cinematograficamente o filme se realiza à maneira de um discurso comum dentro da narrativa clássica, porém ao se invocar a forma do filme como um sentido de transformação retórica dentro de um comprometimento temporal, “O Abismo” não se mostra como um discurso interno da narrativa clássica. É o contrário, os sons da guitarra brilham dentro de uma montagem amarga, o amontoado consciente de Sganzerla não resiste à opressão dos fatos (as críticas do fim da década de 70 demonstram a amargura de quem desistiu, todavia exibem um sorriso brilhante de quem teve que conseguir). O Brilhantismo do filme está exatamente dentro da relação que é muito fácil de notar, o desestímulo e a capacidade de contar algo. A cabeça alimentada por anos de flagelo encontra um ritmo apaixonado que vai muito além da possível carreira que teria dado certo.

“O Abismo” é bom porque Sganzerla desiludido se despe do seu cinema novismo e esquece o relevo do tempo; filma a relação do que se vê nas imagens: um monte de coisas vividas que formam planos, a mundanização do cinema ultrapassa a carreira possível, o gênio precisa de muito. A melancólica abdicação da carreira rompe com a ideia do simples conhecimento do instituir, quem lê os textos do fim da década de 70 de maneira desavisada pensa que o autor nunca ganhou um combate. Mas ele realizou com a impossibilidade, soube mostrar seus filmes para o outro, mesmo que o outro não quisesse ver.

Ganhou. A construção do filme é ilegível no futuro, Sganzerla mundanizou o cinema brasileiro com suas esperanças metodológicas, constituiu um fundamento simplesmente não-cronológico dentro da narrativa clássica (a mais temporal de todas). Teve que sobreviver, correu para fora.

“O Abismo” comprova que o fato de Sganzerla estar no centro de convergência de um cinema de figuras de força social não quer dizer que seu fardo de testemunho deva lhe tornar socialmente um cineasta que se comunica com a vida. O filme não tem o situacionismo do relato que forja o cineasta para o infortúnio e para a esperança, não temos nesse caso um salvador. O cinema moderno no fim da década de 70 está brigando para não se tornar um dos muitos satélites da idolatria social baseada no discurso que visa se apoderar. Sganzerla sabia disso, o filme não se apodera de nada. Ele decupa sem tensões, sabe onde está a luz, temos muitas lições de Welles no caso: a felicidade por não recuar e a falta de vontade em empurrar de volta.

O argumento trata com a vontade de lidar com questões que pairam sobre o instituir, o dual da vida. Um filme feito sem antielitismo que não persiste no contato entre base narrativa e o corpo a corpo do social. Assim como os filmes de Shakespeare de Welles me parece uma forte luz para se ter em vista quando a cacofonia parece tomar conta. A montagem de tudo isso me dá muita esperança de um futuro melhor.

publicado 06/08/2017

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