O Herói Metamodernista, por Bernardo Ferro

  • Um ensaio/diagnóstico sobre algumas novas tendências das histórias em quadrinhos de super-heróis na Era Moderna…

Quando a era de prata dos quadrinhos americanos anunciava seu fim, no começo dos anos 70, muitos dos principais autores da época viraram suas costas para a natureza colorida e lúdica do passado dos super-heróis em troca de um “realismo” político, maior violência e narrativas dúbias. O início da década, com o afrouxamento dos códigos morais que censuravam a produção de quadrinhos, em conjunto com as desilusões sociais vividas pelos norte-americanos (tanto no escândalo watergate quanto na prolongada guerra do vietnã), abriu um fértil espaço para uma revolução na produção de quadrinhos de super-heróis.

O caso mais notório é o do Lanterna Verde, que sobre a direção de Dennis O’Neil e Neal Adams, desiste de suas aventuras espaciais para viajar pelo interior dos estados-unidos, sendo exposto a inimigos que não podem ser derrotados com alguns socos como racismo, abuso de drogas, apropriação de terras indígenas, corrupção, etc. Esse novo momento nos quadrinhos de super-heróis ficou conhecido, posteriormente, como a Era de Bronze. 

E como todas as arbitrariamente denominadas “eras*” que a precederam, ela dirigiu-se para um conclusão (com um final que somente as comics sabem fazer, uma crise no multiverso que refaz décadas de continuidade, trazendo heróis de diversas eras e universos paralelos para combater uma entidade cósmica).

Os anos que se seguiram (era moderna) viram os quadrinhos de super heróis seguindo rumos distintos e paralelos. Enquanto autores como Grant Morrison (em suas séries Batman, Super-homem e Lanterna Verde) e Alan Moore (em especial, Supremo, Tom Strong e Top Ten) retornaram às sensibilidades da Era de Prata para uma exploração metafísica do quadrinho de super-heróis, uma busca por uma mitologia dos heróis no século XX e a ideologia coletiva que eles representam; outros se aproximam das tendências realistas da era de bronze para fazer comentários mais diretamente políticos ( é o caso do evento Guerra Civil, da Marvel, como um comentário sobre as políticas americanas pós 11 de setembro ou a aparição de Barack Obama na capa do Homem-Aranha).

Contudo, é o objetivo deste texto, apontar para uma tendência que tem surgido no quadrinho americano de tratar a dualidade realismo/fantasia, não como duas forças opostas na tradição dos super-heróis, mas como uma potência única de sua narrativa. 

Uma força metamodernista**, que abraça os elementos da ingenuidade modernista das eras de ouro e prata dos quadrinhos com uma força revisionista pós-moderna da era de bronze e era moderna, para construir narrativas que incorporam, conjuntamente, os mais opostos sentimentos do quadrinho de super-herói. Esta tendência argumenta ser, em uma aparentemente incompatível dualidade, a natureza dos quadrinhos de super-herói. 

São histórias como Senhor Milagre, de Tom King e Mitch Geralds, que balanceiam a mitologia kyrbiana do quarto mundo – um universo dentro da DC Comics repleto de deuses alienígenas, guerras infinitas, ficção científica, etc – com temas de depressão e estresse pós-traumático enquanto Scott Free (o Senhor Milagre) lida com as consequências de sua tentativa suicídio.

Scott Free foi criado por um deus maligno, no planeta Apokolips, e tem o super-poder de escapar qualquer armadilha. Mas ele também tem a ansiedade, medo de compromisso, depressão e estresse. 

Outro caso é do quadrinho Garota Eternidade, de Magdalene Vissagio e Sonny Liew, sobre uma mulher com o super-poder de ser imortal, mas sofre de depressão e apatia. A heroína de Vissagio encontra a solução para seus problemas psicológicos ao tentar destruir o guardião do universo (desenhado por Liew no estilo de Jack Kirby).

A dualidade humano/divino é uma característica tradicional da mitologia dos heróis. Sejam eles heróis gregos – meio-humanos e meio-deuses –  ou super-heróis modernos, que assumem uma identidade humana e, ao colocarem máscaras e fantasias, uma identidade divina. Esta ponte entre duas realidades distintas, é extrapolada nesta nova tendência do super-herói.

O herói metamodernista assume os extremos dessa dualidade, o divino e o humano, o realismo e a fantasia. Ele triunfa, por superar as provocações e revisões vazias do pós-modernismo, constantemente preso em si próprio, ao trazer uma certa paixão concreta pelas excentricidades do gênero. Se, como colocam Vermeulen e van den Akker, o metamodernismo é a oscilação entre a ingenuidade do comprometimento progressista do modernismo com o irônico afastamento do pós-modernismo; então é – o herói que assimila os metacomentarios do quadrinho pós-moderno, com a crença modernista de uma arte capaz, através de ideias e sentimentos, através de uma arte de paixões concretas, melhorar o mundo – o verdadeiro super-herói da contemporaneidade.

NOTAS

*Estas datas são arbitrariamente escolhidas e variam muito por perspectiva:

Era de Ouro – 1938 – 1956

Era de Prata – 1956 – 1971

Era de Bronze – 1971 – 1986

Era Moderna  -1986 – presente

** Aqui entendido nos termos de Timotheus Vermeulen e Robin Van den Akker, de um momento social e artístico posterior ao pós-modernismo (póspósmoderno), que retorna características do modernismo do começo do século XX (a crença fundamental no progresso e na melhora da condição humana), amparadas pelo cinismo pós-moderno, para formar uma realidade intrinsecamente dualista.

OBSERVAÇÕES FINAIS E BIBLIOGRAFIA

Recomendo, pessoalmente, que o leitor interessado conheça os quadrinhos Visão e Senhor Milagre, escritos por Tom King; Garota Eternidade, escrito por Magdalene Vissagio, Ms. Marvel, por G Willow Wilson; assim como pode interessar outros quadrinhos do selo Young Animal, da DC; e Exit Stage Left, escrito por Mark Russell que coloca personagens da Hannah Barbera na cena artística dos estados unidos em guerra fria, para comentar sobre homofobia e liberdade de expressão.

Eu gostaria de poder citar mais quadrinhos brasileiros mas, felizmente, eles normalmente se afastam da literatura tradicional das comics norte-americanas em favor de linguagens mais brasileiras

Como bibliografia, apresento Notas sobre o Metamodernismo, de Timotheus Vermeulen e Robin van den Akker. E recomendo ao leitor o manifesto metamodernista, traduzido e publicado nesta revista, e que também pesquise sobre os últimos cinco anos de Shia LeBouf.

Editado por Bernardo Schmitt

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