O piano: Uma ode à vontade e ao desejo, por José Augusto Gomide

Escrito e dirigido pela diretora neozelandesa Jane Campion em 1993, O piano ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado em oito categorias do Oscar incluindo Melhor filme e Melhor diretor e ganhou em três categorias: Melhor atriz para Holly Hunter, Melhor atriz coadjuvante para Anna Paquin e melhor roteiro original para Jane Campion.

O filme se inicia com a voz over de Ada (Holly Hunter) nos explicando que essa voz que nos fala é da mente dela e não sua voz de verdade, pois ela é muda desde os seis anos de idade. Ela nos fala que não sabe o motivo da mudez e que seu pai a deu em matrimônio a um homem inglês que estava na Nova Zelândia, recém colonizada pelos ingleses. Assim, ela e a filha se mudam para a ilha, e entre seus pertences está o piano que dá titulo ao filme.

Com um corte seco, o filme nos transfere imediatamente para o desembarque no mínimo atrapalhado, de Ada, Flora (Anna Paquin), filha pequena de Ada, e o piano na praia da Nova Zelândia, onde os marinheiros as largam sem esperar o marido de Ada aparecer. Nessa sequência os planos são gerais e abertos, a praia nublada indo para o anoitecer. Elas arrumam uma cabana improvisada para se protegerem na noite, e o filme nesse ponto nos mostra a interação entre mãe e filha através da linguagem de sinais. No dia seguinte, Stewart, o marido interpretado por Sam Neil, bonito e visualmente britânico, chega à praia com os nativos que levarão os pertences de Ada floresta adentro. Pragmaticamente ele resolve que o piano ficará para trás. Ada sente como se o piano fosse uma parte física sua, e a decisão do marido causa uma péssima primeira impressão. Um plano mostra o piano abandonado na praia e Ada o olhando desoladamente de longe enquanto ouvimos a belíssima música “The promise”, composta por Michael Nyman para piano.

A travessia floresta adentro é marcada por uma fotografia suja em tons escuros, lama e chuva acentuando a desolação do lugar e da própria Ada. Ao chegar ao novo lar, fica nítido o contraste entre o silêncio de Ada e a barulheira dos nativos, dos empregados da casa e de outros ingleses da região. Ada está chateada por causa do piano, e Stewart tenta dar início a uma relação que não pode ser forçada e com a qual ele não sabe lidar. O personagem parece ser virgem ou um homossexual reprimido, preso a conceitos trazidos da sociedade inglesa que não fazem sentido no fim de mundo onde se encontram. E parece sempre esperar que Ada tome iniciativas, reclamando com outras mulheres inglesas que moram na ilha que Ada não é uma mulher afetuosa. Talvez, ciente de suas inabilidades, Stewart não tenha se importado em casar com uma mulher que já tinha uma filha.

Nesse ambiente se encontra George Baines (Harvey Keitel), um administrador de terras, que parece ter negócios com Stewart e que se adaptou à ilha e aos nativos, sendo muitas vezes rústico nos modos com uma aparência menos polida que a de Stewart. Ele apresenta no nariz e na testa tatuagens aborígenes e se veste como os nativos. Após a insistência de Ada, ele a leva juntamente com a filha para a praia onde o piano se encontra. Quando chegam lá, o plano aberto e bronzeado que abre a sequência remete à alegria e à luz voltando para Ada. Eles passam o dia inteiro na praia.

A filha, Flora, e o piano são as formas através das quais Ada interage com o mundo e se conecta consigo mesma. Ela toca o piano divinamente e parece em transe na maioria das vezes. Numa das cenas mais belas do filme, Ada toca o piano absorta, Flora dança na beira da praia com algas nas mãos, e a câmera a acompanha com fluidez e acuidade. Em seguida, as duas tocam juntas enquanto a câmera sai da frente delas num plano fechado, vai para as costas das duas e se afasta abrindo o plano. A trilha sonora do filme apresenta uma ambiguidade belíssima, em certos momentos os solos de piano tocados por Holly Hunter estão diegeticamente na cena, em outros momentos não. Mas a forma como isso muda é tão sutil que mesmo que se ouçam os sons do piano quando a imagem não mostra ninguém tocando o piano, não se questiona a natureza do som. Ele encaixa perfeitamente e remete à forma como Ada interage com a música, que faz parte de sua vida de forma que ela não precisa estar tocando um piano para ouvir. Um exemplo é a cena em que ela transforma o tampo de uma mesa em teclas e as toca mesmo sabendo que não está saindo som dali. Esse fato faz com que Stewart pense que a mulher tem problemas mentais.

Com planos-detalhes e planos zenitais constantes, vai sendo pincelada aos nossos olhos a complexidade da personalidade de Ada e os sofrimentos que a falta do piano faz emergir. George, atento a isso, faz uma troca com Stewart, terras pelo piano. Nesse momento se finaliza o primeiro ato do filme, no qual o piano se encontrava na praia, e o segundo ato se inicia, com o piano na casa de George. Ada fica revoltada, mas George leva o piano para casa e pede que ela lhe dê aulas. Ela resiste de início, mas as aulas consistem em ela tocar e George observar. E Ada sente fisicamente a falta que o piano lhe faz. Um dia enquanto ela toca, George encosta no pescoço dela e ela se assusta. Ele faz um acordo com ela, uma tecla por dia até que ela tenha o piano de volta e ele poderá fazer o que ele quiser enquanto ela toca. Nessas idas e vindas das aulas, Flora fica do lado de fora da cabana, e Ada toca para George. Num dia, ele deita embaixo do piano, pede para ela levantar a saia e ele passa o dedo na pele dela através de um buraco na meia. A singeleza do ato faz dessa uma das cenas mais sensuais da história do cinema. Em outra aula ele pede que ela toque com os braços de fora, o que tradicionalmente na época em que se passa a história seria um absurdo. A intimidade dos dois vai crescendo enquanto Ada acredita estar cedendo aos pedidos do aluno unicamente para ter seu piano de verdade. Até que ele oferece 10 teclas para que ela se deite nua do lado dele. Nesse jogo de sedução, George se apaixona por Ada e resolve devolver o piano, pois considera que o acordo a torna uma prostituta. Nisso, Ada se entrega aos próprios sentimentos e se torna amante de George. Flora, a filha que fala mais do que deve, vê um dos encontros, o marido presencia outro, e perante a recusa dela de ter a mesma intimidade com ele, ele a tranca dentro de casa.

É interessante notar entre esses acontecimentos o voyeurismo de Stewart num misto de curiosidade virginal e homossexualidade reprimida, a postura de Flora perante a autoridade da mãe e o conflito de Ada perante o desejo. Stewart parece ter uma repressão religiosa bloqueando sua sexualidade, o que fica visível no momento em que ele vê a esposa transando com outro homem e fica olhando todo o ato escondido no assoalho da cabana sem tomar nenhuma atitude para impedir o que estava acontecendo. Flora é quem apresenta maior ambiguidade em suas atitudes durante todo o filme, ela tem uma postura madura ao cuidar da mãe e ao fazer com que as outras pessoas entendam o que Ada quer sendo uma ponte de comunicação para a mãe. No entanto, muitas vezes, Flora apresenta sinais de pré-adolescência e uma forte resistência à autoridade materna, numa referência ao Complexo de Édipo, aqui sem uma figura paterna bem definida, tudo isso somado à mania de contar histórias mentirosas a outras pessoas sobre a origem da mudez da mãe e outras fantasias que muitas vezes soam como maldosas e manipulativas. Por fim, Ada, ora resiste ora se entrega aos seus desejos num conflito mudo muito bem captado pela câmera em planos, enquadramentos e movimentos belíssimos. Por exemplo, antes de decidir voltar à cabana de George sem a desculpa do piano, a câmera se aproxima de sua nuca e foca no coque do seu cabelo onde há uma transição para um plano da floresta. O foco aqui é a libertação sexual da mulher e um autoconhecimento atingido por conta do prazer carnal.

Depois que fica presa dentro de casa, as atitudes de Ada se mostram mais intensas e incoerentes. Num momento Ada acaricia o próprio rosto enquanto se olha no espelho e acaba beijando a própria imagem. Essa atitude narcisista é uma analogia à masturbação ou à descoberta do prazer pelo próprio corpo e o amor pela própria imagem. Em outro momento, Ada toca piano de madrugada num ato de sonambulismo, aqui mais um exemplo ligado à repressão dos desejos sexuais. Em seguida, Ada acaricia o rosto e o torso do marido, mas quando ele a toca ela se retrai; num outro momento ela acaricia as nádegas do marido e com medo de se entregar ao prazer anal Stewart a afasta.

Finalmente, Stewart a liberta de seu confinamento, acreditando que a esposa esqueceu George e está mais aberta ao casamento. E entramos finalmente no ato final, com o piano se encontrando junto de Ada na casa do marido e não despertando a paixão de Ada tanto quanto antes. Ada pede pra filha levar uma mensagem escrita numa tecla do piano a George, mas num ato de rebeldia e dissimulação Flora entrega a mensagem para Stewart. A sequência que se segue é a de maior apelo dramático do filme. Numa sequência anterior, Flora interpreta um anjo numa peça teatral organizada pelos colonos que tem uma cena onde um homem decepa a mão de uma mulher com o machado (a encenação por sinal é interrompida pelos nativos que não entendem a diferença entre teatro e vida real e acreditam que o marido está de fato decepando a esposa). De volta para a descoberta da traição, Stewart pega um machado e volta para casa com Flora usando a asa de anjo o acompanhando. Ele confronta Ada, dá uma machadada no piano, arrasta-a na chuva para um toco de árvore e lhe arranca o dedo indicador com uma machadada. A simbologia aqui é inevitável, Ada tira uma tecla no piano e declara seu amor por George, Stewart corta um dedo de Ada por causa da mensagem. Ada, imersa em dor, cambaleia pela chuva e desmorona sentada numa poça de lama, seu vestido infla, enquanto a chuva cai. A dor muda de Ada novamente contrasta com o escândalo de Flora que presenciou aterrorizada a cena, que por estúpida malícia ocasionou. A chuva é mais um detalhe que amplia a potência da cena. Não é só uma mutilação, é um impedimento de que Ada faça a única coisa que a fazia feliz e realizada, tocar o piano.

Stewart obriga Flora a levar o dedo da mãe para George e a promessa de que vai continuar cortando-a caso ele a procure. Stewart, após um momento epifânico, no qual ele acredita que Ada falou com ele na mente dele, permite que George vá embora e leve Ada com ele. No clímax do filme, Ada está no barco com Flora, George, o piano e alguns nativos e decide se livrar do piano, jogando-o no mar. O piano é largado no mar e, enquanto ele afunda, Ada põe o pé na corda na qual o piano está amarrado e afunda com ele. No meio do ato suicida Ada se arrepende, se liberta da amarra e volta à superfície. Como se fosse a única decisão que ela como mulher pudesse tomar com o seu corpo, além de não achar que poderia tocar piano novamente, Ada decide ir para o túmulo oceânico junto do piano, porém, a vontade de viver, o instinto de sobrevivência fala mais alto.

O filme termina com Ada narrando em voz over que ela e George estavam juntos, e ele fez para ela um dedo de metal para que ela pudesse voltar a tocar piano, além dela estar treinando a fala novamente.

O piano é um filme sobre vontade e desejo, é sobre o encontro de uma mulher com o desejo e o prazer sexual e as consequências disso numa sociedade patriarcal. Numa das falas finais de Ada em voz over ela diz: “Minha vontade escolheu a vida” e em outro momento Stewart diz ter ouvido Ada falar em sua mente: “Tenho medo da minha vontade, do que pode fazer. É tão estranho e forte”. A escolha da palavra vontade ao invés de desejo nos leva à filosofia existencial de Shopenhauer e sua teoria da vontade como força movente do mundo.

A vontade é o elemento fundamental a fim de trazer o sentido das coisas e do mundo. É essa união entre o corpo e o sentimento, segundo o filósofo, que proporciona a essência metafísica elementar: a vontade da vida. Em O piano, a vontade é o que move todas as coisas e faz com que corpo e espírito encontrem um equilíbrio.Punctum Guto sobre O piano set17

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