Um Freezer na Noite, por Bernardo Schmitt

  • Ensaio sobre a natureza de um dos mais complexos programas da televisão, Pesadelo na Cozinha.

Como muitos, eu tenho assistido fascinado o programa Pesadelo na Cozinha. Talvez você conheça pelo episódio do Pé de Fava, que traz consigo alguns dos mais insanos momentos da televisão brasileira recente. Penso que uma série de ensaios poderiam ser escritos somente sobre as questões morais, relações de poder e completa loucura que aquele episódio representa.

Eu gostaria porém, de utilizar esse programa para pensar um pouco sobre o cinema de reality shows. Pensar, em certa medida, a natureza do “real” nos ditos shows da realidade. Ou, se exageramos um pouco, a metafísica de “Pesadelo na Cozinha”.

Se a premissa acima já não lhe afastou completamente deste ensaio, leitor, me permita então o luxo de fazer um pequeno desvio do nosso caminho e conversar um pouco sobre o outro lado da moeda primeiro: a narrativa ficcional.

Uma narrativa ficcional é nada mais do que uma mentira, ordenada de maneira a, ou convencer os espectadores de que é real, ou impressioná-los o bastante para que não se importem. Nós não esperamos encontrar a “realidade” quando vamos ao cinema ver um filme . Temos a plena consciência de estarmos vendo uma mentira, apenas atores falando palavras ensaiadas. Mas narrativas são escorregadias, elas operam em níveis mais baixos do que nossa consciência por vezes percebe. Mesmo tendo completa noção de estarmos diante de uma mentira, as narrativas nos forçam a empatizar com personagens, nos apresentam situações construídas, e levam a conclusões planejadas. 

Sendo toda narrativa necessariamente política – por tratar-se do resultado dos esforços de pessoas que selecionam e constroem histórias baseadas nos seus gostos e ideais particulares – é útil pensar nelas como argumentos. Somos apresentados a premissas (ato I), levados por tensionamentos da ideia (ato II) e chegamos a uma conclusão (ato III). Mas, diferente dos argumentos comuns de discussões cotidianas, nossas defesas críticas naturais são comprometidas pelo elemento sentimental da narrativa, a empatia. Não apenas não sabemos que estamos sendo apresentados a um argumento, somos coagidos a empatizar com a protagonista pelas mais diversas técnicas dominadas pelos escritores e contadores de histórias.

Para utilizarmos de um exemplo atual, que vem se tornando uma certa fixação desta revista, apresento o coringa de Todd Phillips.

O primeiro ato do filme preocupa-se com introduzir a personagem do coringa, vemos o mundo pelo seu ponto de vista, empatizamos com a sua situação e somos introduzidos a premissa: o que acontece com um homem abandonado pelo sistema?

O segundo ato tensiona a premissa, apresenta situação e mostra as reações da protagonista. Ele sofre violência, ele revida. Ainda nos é natural concordar com a sua posição, afinal, o filme não começa com o coringa matando várias pessoas (uma situação da qual não empatizamos), ele começa com o coringa sofrendo.

O Terceiro ato do filme nos leva a conclusão do argumento. O que acontece com um homem abandonado pelo sistema? Ele vira um avatar para a destruição desse sistema.

Nós sabemos que o filme não é a realidade, sabemos que estamos vendo um espetáculo cinematográfico. Mas enquanto estamos ocupados com o filme, não nos damos conta do argumento que está sendo operado. Não vemos as falhas nele, não questionamos que, todo o argumento, seu tensionamento e conclusão são feitos pela mesma pessoa. Não percebemos o quão enviesado ele é.  

Se não percebermos o argumento, tomamos sua conclusão como verdadeira. Dentro da lógica do filme, torna-se difícil argumentar contra a violência do coringa.

Mas esse não é mais um texto sobre o coringa. Esse é um texto sobre uma obra que explora de forma muito mais complexa o sistema e as relações de poder em nossa sociedade. Pesadelo na Cozinha.

Enquanto a ficção, especialmente aquela que esconde seus argumentos, é culpabilizavel de seus males. A chamada não-ficção, representada aqui por nosso chef francês, é aquela que mente em dois níveis para seus espectadores.

Ela mente quando se distancia da ideia de narrativa e se afirma ser “real” e ela mente da mesma forma que a ficção, ao esconder seu argumento do espectador.

A primeira mentira é mais facilmente destruída. Primeiro, por que as câmeras que capturam a ação não são câmeras de segurança escondidas. Enquanto Jacquin avalia o restaurante, uma equipe de operadores de som, produtores, cameraman e assistentes são necessários. Não existe naturalidade em meio a um set de filmagem.

Segundo, pois uma coisa que não é facilmente dissociável para nós como espectadores é o som e a imagem. Estes dois componentes do cinema são capturados separadamente, tratados separadamente e editados separadamente. Nunca sabemos se o som que ouvimos ocorre ao mesmo tempo que a imagem. Se alguém fala e não vemos a boca, se algum som vem do fundo, se surge alguma música dramática, são todos os efeitos da narrativa. 

Por último, existe a montagem. Este é o mais liso dos efeitos do cinema. É aqui que as narrativas são concluídas. A ficção nasce no roteiro, a não-ficção, na montagem.

Veja esta cena do episódio Esporte Bar, de Pesadelo na Cozinha. Nela, JC (o proprietário) faz com que uma de suas funcionárias, Fernanda, sai do restaurante chorando. O programa então intercala entre três cenas. Fernanda chorando sozinha (cena 1), Jacquin consolando Fernanda (cena 2) e Jacquin brigando com JC (cena 3).

Cena 1

Cena 2
Cena 3

O problema surge quando analisamos que a cena 2 toma lugar em um cenário diferente da cena 1, com iluminação diferente. A aposta que eu faço agora é a de dizer que estas cenas não aconteceram como o programa nos mostrou. Que depois da briga com JC, Fernanda foi para fora do restaurante, seguida por um cameraman que não fez nada além de apontar sua câmera enquanto jacquin ficou lá dentro (as imagens da cena 1 e 3 combinam melhor em coloração e iluminação do que a 2, que desponta). Depois, a produção pediu que Fernanda chorasse novamente em frente a câmera para filmar uma cena entre Jacquin e ela.

Outro efeito menor de enganação acontece no episódio de Bawarchi, após a reforma da cozinha do estabelecimento, vemos estas duas imagens que comparam o lugar antes e depois da reforma. 

Perceba que a imagem da cozinha anterior tem uma coloração (adicionada durante a pós-produção) amarelada, enquanto a cozinha posterior é azulada. Um efeito sutil que altera a realidade para melhor vender a idéia de uma cozinha limpa e de uma cozinha suja.

Não a realidade no reality show, existe apenas a, dificilmente quebrável, ilusão audiovisual.

O cinema, por possuir um realismo maior que qualquer outra forma de arte – ao simular eficientemente nossa visão, nossa audição e nossa percepção de tempo – torna-se a mais traiçoeira ferramenta midiática. 

Então, eu proponho que nos aproximemos de Pesadelo na Cozinha como uma obra de ficção completa. Para tanto, precisamos tomar certas liberdades com o material. Jacquin, aquele que vemos, não é mais uma pessoal real, mas meramente um ator. Os restaurantes disfuncionais, são cenários construídos. Os clientes, figurantes.

Nesses friamente calculados episódios, os roteiristas (pois agora assumimos que existem) trabalham as relações de poder que estruturam a sociedade brasileira. 

Um tema recorrente da obra são os casais donos de restaurantes. Onde os papéis são, comumente, do homem como autoridade e da mulher como serviçal. Pé de Fava leva este conceito ao seu limite, com Fábio, sendo uma figura autoritária vazia, que grita e humilha suas funcionárias, todas mulheres, constantemente para que sigam suas ordens que, como percebemos posteriormente, são todas incorretas. Pois, elas entendem muito melhor do que estão fazendo que ele.

Os erros de comunicação também permeiam as relações de poder da série. Onde, no trânsito da informação dos pedidos, que funciona da seguinte maneira: 

Cliente -> garçom -> cozinha -> garçom -> cliente.

Os pormenores da comunicação se elevam em um efeito cascata, em que, um pequeno erro no início da cadeia, resulta em um fracasso completo do restaurante. Um garçom que anota incorretamente um pedido, acaba causando problemas para diversos clientes que, ora recebem a comida errada, ou, ao não receberem comida alguma, partem frustrados.

Em nenhum episódio essa relação é melhor explorada do que em Bawachi, um restaurante de comida indiana onde os funcionários são de origem indiana e Paquistanesa, tendo o português como segunda língua. O mesmo caso de Jacquin, francês. Estes diferentes sotaques, diferentes éticas profissionais e diferentes paladares devido as origens culturais de cada um elevam o restaurante a uma torre de Babel. Onde a comunicação fracassa em todos os seus níveis. 

Este é o melhor episódio para o desenvolvimento da personagem de Jacquin, e o ator faz um excelente trabalho. Temos a percepção de que nada magoa mais o chefe do que não ser ouvido, provavelmente devido às dificuldades que encontrou com seu sotaque ao vir para o Brasil (ele é sempre legendado, desde a época do Masterchef). O que o causa a constantemente enrubescer em raiva diante de um grupo de cozinheiros que preferem ignorá-lo (e você pode culpá-los?).

E falando em Jacquin, o que é ele se não um anti-heroi? Tentando, através da humilhação pública de pessoas, levá-las a uma revelação empreendedora.

Erick Jacquin é o sonho molhado do neo-liberal. O imigrante branco e europeu, que vem para o Brasil e se torna rico com seu próprio negócio. E ele perpétua esses métodos deturpados do empreendedorismo para guiar os seus humilhados até o ouro no fim do episódio. Em todos os episódios a estrutura se repete, Jacquin visita um estabelecimento onde a comida é ruim, os garçons ineficientes, a cozinha suja e os líderes fracassam em gerir. Jacquin faz uma primeira tentativa de consertar o lugar e fracassa. Então, ele leva o proprietário e seus funcionários para uma revelação espiritual (a cena do maestro, em Pé de Fava), enquanto o restaurante é reformado. No fim, após uma última crise em que pensamos “não vai dar certo” finalmente o proprietário emerge triunfante.

O liberalismo triunfa!

Mas eu não posso terminar um texto meu desta forma, anunciando a vitória do liberalismo. A morte doeria menos.

E é verdade que os liberais triunfam em pesadelo na cozinha, afinal este é o argumento que a série opera enquanto estamos ocupados com a narrativa. 

O liberalismo vence em Pesadelo na Cozinha, pois a estamos tratando como uma série de ficção. E onde mais o ele ganha que se não no reino da ficção? 

Se fizermos a análise de Pesadelo na Cozinha como eu propus neste texto, enxergando-o como nada mais do que ficção, esta é a conclusão.

Mas eu não acho que essa é a melhor forma de se debruçar sobre a série. Pois, é útil duvidarmos da veracidade do reality show, e até mesmo chegarmos ao ponto de tratar tudo como mentira. Mas existem pequenos lapsos de realidade que persistem a narrativização.

Quando Fábio fala para a câmera que ele se importa mais com o restaurante do que com a própria filha. Os abusos sofridos pelas funcionárias do Pé de Fava. O preconceito cultural de Jacquin que cozinha um prato para o restaurante Bawarchi e fala “coloca um nome indiano aí e põem no cardápio”. Esses são os males que o coaching empresarial de Jacquin não se pretende em concertar. Eles não se resolvem, ficam do restaurante falido ao de sucesso.

E então vem a maior piada, a reforma espiritual e física do restaurante. A primeira é uma farsa, uma brincadeira. É colocar uma série de cozinheiros para dançarem em um videoclipe. Levar o proprietário do Esporte Bar até o hopi hari. Uma performance com um maestro para o Pé de Fava. 

A segunda, é a reforma física completa do estabelecimento. A ficção se torna clara, pois, apesar de todo o coaching e humilhação de Jacquin, o que realmente é necessário para crescer não é uma reestruturação emocional, é um investimento prévio de muito dinheiro e um patrocínio da Philco.

Pesadelo na Cozinha talvez seja um dos mais interessantes programas da televisão brasileira atualmente, pelo caleidoscópio complexo de sensações que ele proporciona. 

Existem problemas sociais inerentes a sua proposta, ele se utiliza dos medos pessoais e das realidades de pessoas normalmente pobres, para gerar entretenimento. Ele prega argumentos falaciosos para validar uma mensagem falha. Perpetua preconceitos e idéias ultrapassadas. E, talvez por todas as suas falhas, não haja melhor reflexo para a sociedade brasileira atual no cinema do que o perpétuo fluxo entre verdade, mentira e meme que é Pesadelo na Cozinha. Um cinema feito por mentirosos e enganadores, que, por vezes, fracassa em mentir e acaba contando alguma verdade.

Escrito e Editado por Bernardo Schmitt

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