A necessidade da loucura e a força plástica

Rafael Fontes Gaspar

Na série Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa, Paulo Gaiad medita sobre o tempo ocioso que está presente na vida do animal, que pasta em frente à sua casa, onde está sendo construída uma igreja. Gaiad, com a retratação da vaca, sugere o autorretrato da própria condição de artista. A condição do animal bovino e a condição do artista proposta em seu trabalho mostram a importância de se perceber o instante atual, a ruminação surge como um ato de criação, em perfeita harmonia com seu tempo presente. Segundo o artista, “Qual a nossa importância histórica? Vivemos de ter ideias, enlouquecendo com elas, insanos artistas. Eu queria ser vaca, porque vaca não pensa. Estou cansado de pensar, o tempo todo pensar”. O animal bovino que pasta cuidadosamente está ligado ao instante, vive o momento atual, sem tristeza e sem preocupação. De acordo com o que Nietzsche afirma, “Quem não se instala no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem não é capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa da vitória, sem vertigem e medo, nunca saberá o que é a felicidade e, pior ainda, nunca fará algo que torne os outros felizes”.[1]

O homem admira o animal, observa a tranquilidade que deseja ter para conquistar a harmonia do instante. Conforme Gaiad, “a vaca preta é a figura da placidez, da tranquilidade, da lealdade e do equilíbrio”. Mas para conquistar esse momento de felicidade é preciso esquecer; entretanto, parece que o homem perdeu essa capacidade. A capacidade de esquecer o passado e viver apenas o presente é o que diferencia o homem do animal. O homem está preso às lembranças. O animal vive o presente e não carrega o fardo das lembranças, como o homem o carrega em seus ombros. O homem precisa aliviar o peso das lembranças para desfrutar uma vida mais saudável e feliz, portanto, necessita do esquecimento. Como que antecipando Nietzsche, Erasmo de Rotterdam discorre sobre a felicidade concedida pela loucura: “sou eu quem providencia mantendo os homens na ignorância, na irreflexão, no esquecimento dos males passados e na esperança de um futuro melhor. Misturando as minhas doçuras com as da volúpia, eu amenizo o rigor do seu destino”.[2]

Na Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida, Nietzsche desenvolve suas principais ideias sobre a memória e o esquecimento, critica o intelectualismo exacerbado e propõe a “força plástica”, como atividade artística para se ter uma vida mais afirmativa, pois só o riso e a alegria permitem uma vida mais saudável, ao contrário do acúmulo de conhecimento do historiador historicista, do culto desmedido ao passado, que compreende a vida só para conservá-la, arquivá-la e não gerá-la. O animal surge no primeiro capítulo como símbolo do esquecimento. O homem não consegue estabelecer uma harmonia com o instante atual, desse modo, admira o animal que rumina cuidadosamente no pasto.

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz com seu prazer e desprazer à própria estaca do instante, e, por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele se vangloria de sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade – pois o homem quer apenas isso, viver como o animal, sem melancolia, sem dor; e o quer, entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: porque não me falas sobre tua felicidade e apenas observa? O animal quer também responder e falar, isso se deve ao fato de que sempre esquece o que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira isso.[3]

Paulo Gaiad realiza uma instalação no Paço das Artes em São Paulo, no projeto de ocupação do Paço, onde cada artista deveria produzir seus trabalhos durante um período de doze dias. O artista forra o chão com papel jornal e passa dois dias redigindo seu texto do Atestado da loucura. Cria na instalação uma narrativa da imagem com o uso do texto; enquanto escreve, torna o instante algo próprio do artista, semelhante à condição do bovino que cuidadosamente rumina em seu pasto. “A vaca preta chegou até mim, num momento de solidão, de reclusão e esvaziamento.” O símbolo da vaca como elemento pictórico gera uma narrativa. O artista prossegue em seu texto sobre a importância da vaca para sua existência: “Ela me fez pensar e me jogou para os textos. Os textos me fizeram pensar e me jogaram de volta à vida”.

Figura 1 –Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa. Imagens da Instalação realizada no Paço das artes em São Paulo.

Aqui está a vaca, destacada do resto do pasto, realizando sua atividade mais habitual, de pastar. O artista passa a corda e amarra a imagem da vaca na instalação, caso ela não se sinta bem no novo lugar e fuja. O pasto não existe na imagem, o alimento inteiro foi ingerido e está em processo de ruminação, no seu sentido mais pleno. Nada sobrou, restou apenas o vazio. O único preenchimento do pasto é feito com as palavras do artista. O apagamento na obra de Gaiad, que ao mesmo tempo é esquecimento, por outro lado é memória, que estão juntos no mesmo processo de ruminação. Para o artista,

nesse vazio que estamos inseridos, somos essa coisa impalpável mas necessária, cheia de ideias e eteceteras, que sustenta e dá significado ao mundo. Talvez esse seja o processo da nossa loucura, sermos necessários e inúteis, o cheio e o vazio, felicidade, liberdade, alma, insanidade e dor.

A série de imagens do Atestado da loucura é constituída em sua composição pictórica por fotografias de uma família uruguaia desconhecida, que foram compradas num antiquário. As fotos com a família uruguaia foram primeiramente apresentadas em sua série intitulada Divina comédia (2003-2007). Gaiad cria uma série de imagens sobre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso com detalhes de fotografias da família uruguaia e de outras imagens selecionadas, que vão concretizar sua proposta estética. São pessoas que o artista escolhe para conviver no seu espaço. As pessoas o acompanham em seu ateliê, no seu mais íntimo convívio. O artista garante que não existe um critério para a escolha da imagem dessas pessoas que aparecem, a única coisa que importa é a vaca. Ele simplesmente escolheu a fotografia dessas pessoas para conviver com ele, apenas se retém ao detalhe que deseja obter em sua composição. Sobre o suporte de papelão (Figura 2) aplica imagens ampliadas, sobre detalhes da imagem dessa família, de pessoas fotografadas que vão depois acompanhá-lo em outros trabalhos, como vai surgir na imagem junto à vaca na série Atestado da loucura (Figura 3).

 

Figura 2 – Paulo Gaiad. Divina comédia, purgatório, 2003 – 2007.  Fotografia e intervenção sobre papelão. 40 x 40 cm.

 

Figura 3 – Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa, 2003. Fotografia, texto e acrílica sobre tela. 140 x 200 cm.

Em seu processo de criação ocorre uma destruição física das imagens, ele as desgasta e envelhece, marcando a densidade do tempo passado. Ocorre uma ressignificação dos elementos fotográficos aplicados em sua tela. A obra do artista está coberta por imagens fotográficas que são raspadas, ou perfuradas, ou recortadas e recolocadas como fragmentos antigos. A imagem fotográfica articula-se com a pintura num processo híbrido de sua poética visual. Da fotografia o artista resgata algo que estava esquecido e nela imprime novos significados. Gaiad afirma:

Fotografia é lembrança, é aproximação. É lembrar o tempo todo, insistentemente aquela imagem parada. As fotos da vaca preta estão sobre minha mesa. O tempo todo, em todas as horas, quando estou neste meu lugar, vejo a vaca sobre minha mesa. Às vezes olho pela janela e ela não está no pasto, mas deita imponente sobre minha mesa, ao lado de lápis, tintas, papéis e contas a pagar.

O artista seleciona passagens do Elogio da loucura e fixa na tela esses textos como elemento de contribuição. No caso desta série de imagens, o texto de Erasmo de Rotterdam permite que o traço literário da obra percorra sua narrativa pictórica. Como em toda sua obra, Gaiad não se detém nas coisas exatas e óbvias, deste modo procura nos textos ou nas imagens aquilo que gostaria de ver, põe seu olhar sobre o detalhe do texto e da imagem. A presença do texto em suas obras revela um jogo complexo de imagem e linguagem. Obtém um transbordamento de significações constituído pela união entre palavra e imagem. O artista declara no início do seu texto, “Vivo pensando, o tempo todo, criando pontes, analisando o porquê de algumas coisas, de alguns discursos, tentando achar conexões para as palavras e as coisas, para o fazer e o viver. Como uma vaca preta, vivo ruminando”. A presença do texto muda e acrescenta algo à composição da imagem, deste modo o artista sugere um hibridismo que mostra uma superposição de sentidos entre frases e diversas colagens. O texto em suas telas parece quase imperceptível, mas que carrega ideias que complementam suas obras.

Figura – 4. Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa, 2003. Fotografia, texto e acrílica sobre tela. 140 x 200 cm.

Há necessidade de falar aqui dos que professam as belas-artes? O amor-próprio é tão natural a todos que talvez não haja um só que não preferisse ceder seu pequeno patrimônio do que sua reputação de homem de gênio. Tais são, sobretudo, os atores, os músicos, os oradores e os poetas. Quanto menos talento possuem, maior seu orgulho, sua vaidade, sua arrogância. Todos esses loucos encontram, porém, outros loucos que os aplaudem; pois, quanto mais uma coisa é contrária ao bom senso, mais ela atrai admiradores; o que há de pior é sempre o que agrada a maioria; e nada é mais natural, posto que, como já vos disse, a maior parte dos homens são loucos.[4]

Sobre a série Atestado da loucura, o artista comenta que conforme definia a imagem que a tela teria, ele lia aleatoriamente o texto de Erasmo à procura de trechos que lhe explicassem a imagem. Para o artista, esse caminho que o narrador de Erasmo de Rotterdam realiza em sua viagem, quando sai da Itália e vai para a Inglaterra, onde se hospeda na casa de Thomas More, local onde escreve o Elogio da loucura, é o mesmo trajeto que ele próprio realiza quando caminha pela praia do Campeche. A produção em seu ateliê, localizado no Sul da Ilha de Florianópolis, perto da praia do Campeche, representa a experiência da vida perto do mar, a presença dos pássaros, das águas e principalmente, a companhia da vaca preta. Existe uma relação da série de imagens do Atestado da loucura coma das Paredes que me cercam (2003-2007), série em que o artista retrata a Praia do Campeche, onde ignora a noção de paisagem, a noção de cartografia, mas onde todos elementos estão presentes: a lua, as dunas, as árvores, o jogo entre imagem e texto, o pasto e a vaca. A vaca presente na série As paredes que me cercam (Figura 5) é precursora do trabalho que vai gerar a vaca preta no Atestado da loucura.

 

Figura 5 – Paulo Gaiad. As paredes que me cercam VI, 2003 – 2007. Acrílica, fotografia, cimento e massa sobre tela. 200 x 140 cm.

Gaiad constrói um ambiente imaginário que é, ao mesmo tempo, fonte de seu testemunho autobiográfico. A série As paredes que me cercam revela que o lugar é um vir a ser, um lugar de significações. O trabalho do artista é conduzido por uma biografia pictórica. A inscrição rupestre nas pedras da ilha do Campeche que surge na obra do artista expressa um trabalho indicador de caminho. Segundo o artista, “São os caminhos da arte, feitos de questionamentos, textos, imagens, traços, inserções, referências, apropriações, uniões e tentativas de criar documentos que nos sirvam como indicadores de um caminho, que marquem nossa presença ao nosso tempo”. Com o epílogo do texto Atestado da loucura, produzido a partir da imagem seguinte, contida numa série em que o artista relaciona 39 páginas de sua vida em imagens produzidas, ele apresenta o poder do testemunho autobiográfico.

Encontro o mar, a água, as pedras, os pássaros e as árvores. Procuro o consciente no inconsciente. Quero saber. Corro atrás do desconhecido. Passo um atestado da loucura necessária. Porque eu vivo das sobras e dos sonhos. Vivo de juntar memórias e remontar a vida. Como um artista.

 

Figura 6 – Paulo Gaiad. 39 páginas de uma vida, 1992.  39ª. Página: O atestado da loucura necessária. Desenho, pintura e colagem sobre papel.

Paulo Gaiad em seus relatos literários e pictóricos mostra que cabe ao homem moderno ruminar o passado, entendendo pelo ato de ruminar do animal como símbolo do esquecimento. A relação entre imagens pictóricas e imagens literárias mostra o ato de ruminar como força plástica do artista. O privilégio dado à dimensão do esquecimento revela a condição do animal bovino, que vive tranquilamente o instante. A obra de Paulo Gaiad é acontecimento, condiz com esse instante do animal. Esse momento animal carrega o esquecimento e possibilita a felicidade. A marca do tempo está presente na obra de Gaiad. O passado é algo que está ocorrendo. Sua narrativa pictórica autobiográfica está embasada na memória. Uma produção artística entrelaçada por um fio imaginário, gerado pelas suas caminhadas na praia do Campeche. A simplicidade do artista desperta um misterioso fascínio sobre o lugar em que vive, a paisagem e suas memórias. O artista, com a sua dose diária de loucura, ressalta que é uma loucura afirmativa, positiva, que cria através de uma força plástica um campo imaginário cercado por textos, imagens e os diversos materiais empregados em suas narrativas.



[1] Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Considerações extemporâneas II: utilidade e desvantagem da história para a vida. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. In: ____. Nietzsche. Coleção Os Pensadores. 3. Ed. São Paulo : Abril Cultural, 1993, p. 58.

[2] Rotterdam, Erasmo de. Elogio da loucura. Tradução de Paulo M. Oliveira. In: ____. Erasmo. Coleção Os Pensadores. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 48.

[3] Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Segunda Consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 7.

[4] Rotterdam, Erasmo. Elogio da Loucura. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 73.

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