por Felipe Moraes
A edição de 2010 do FAM, ao ver pela programação, mostra-se mais carente de opções do que nos anos anteriores. Se o recorte ideológico que nomeia o festival restringe suas próprias opções de crescimento, foi na fuga deste que o FAM encontrou interessantes e, se não ao menos, criativas opções de sobrevida. O que se denota este ano porém, é uma mistura de um festival estabelecido e parte dos parcos eventos correntes da cidade, com uma preocupante falta de fôlego. Fora a antologia da EICTV, a exibição de três longas restaurados da Cinédia em homenagem aos 80 anos da companhia cinematográfica fundada por Adhemar Gonzaga é o principal evento exterior à programação normativa do festival.
O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu, maior sucesso de público da Cinédia, iniciou a homenagem. É curioso como o que sobra do filme é o que reflete nele do contexto no qual foi produzido. Numa narrativa completamente desajeitada, em que supressões e distensões narrativas equivocadas deixam bastante evidente que a dificuldade em realizar cinema no Brasil enfrentava não só deficiências técnicas e financeiras, como a falta de traquejo com a linguagem cinematográfica. O filme se ampara numa mistura de melodrama com chanchada carioca (invenção formal da própria Cinédia, com Alô, Alô Carnaval, de 1936), onde conjunturalmente o país era fortemente radiofônico, fato esse que não passa incólume pela importância narrativa do rádio no filme, em que o protagonista ascende socialmente (e renasce também, com a ajuda de um padre) em função do sucesso que sua voz e suas músicas fazem, e também pelo protagonismo de Vicente Celestino.
Na mostra de vídeos, a agradável tosquice de Pré-Socráticos x Indígenas foi o melhor da sessão. Tosco não é a melhor palavra para o filme, principalmente se tratando de um vídeo com viés educacional, parte de um exercício de uma oficina para os índios Ticuma. O ápice do filme de Jorge Bodansky é o tal embate do título do filme, mas que se dá através de um jogo de futebol, onde índios se fantasiam de filósofos gregos e de sábios indígenas para uma partida em um enlameado e improvisado campo de futebol, numa engraçada e simbólica imagem do Ocidente. Em Casa é o resumo de quão chato e facilitado pode ser o cinema contemporâneo quando se adota os tempos mortos enquanto forma e a incomunicabilidade como tema. Não que 3:33 e Uma Canção de Dois Humanos sejam muito diferentes disso, mas aqui a aposta estílistica é expressamente mais forte, seja pela montagem ou pela fotografia. Direita É a Mão Que Escreve é um filme infantil dos mais moralistas, onde o esforço narrativo se concentra numa distinção dual do mundo, em que os perigos de não saber o caminho correto resultam num mundo de loucos, pessoas más e egoístas, e prostitutas. Filme infantil aqui é antes pejorativo do que gênero cinematográfico.
Nos curta-metragens em 35mm, Formigas é o que desperta maior interesse. Mesmo com uma mise en scène bastante preguiçosa (e de forma alguma me parece referencial e devedora de qualquer cinema japonês), a relação que se cria entre os personagens é a força do filme. Aposta essa que é a mesma de Pão com Mortadela, onde mais claramente se intende ou declara um filme de personagens, de atores. Mas há uma confusão entre como fazer isso, pois se aposta numa execução formal óbvia, onde primeiros planos e campos e contracampos dominam o filme, ajudando a tornar mais desinteressante a relação entre os protagonistas. Blanco i Negro é antes um exercício do uso do som do que de fotografia. Apesar da ultra-contrastada fotografia em preto e branco que segue um capataz perseguindo um escravo pelo deserto, é na construção do som que a aridez e violência do filme se concretizam. Beijos de Arame Farpado é uma espécie de continuação do curta Veludo e Cacos de Vidro. Se no filme anterior existia algum divertimento na narrativa de esvaziamento quase publicitário dos primeiros filmes de Sganzerla, onde a adoção e leitura mais superficial do estilo desses filmes era a chave para a arquitetura do curta, em Beijos de Arame Farpado o que existe é a auto-referência, a piada interna, o esgotamento do que já era raso. O filme é uma clipagem, um esboço de narrativa, colado por uma montagem que se esforça em criar atração e estilo onde existe apenas um amontoado de situações.
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