por Felipe Soares
Ainda não fui ao Fam deste ano. Devo ir hoje. Ou amanhã. O que importa é: vivendo numa cidade tão carente de “produção cultural e artística de qualidade”, por que será que, quando aparece algo dessa magnitude, o Fam, eu não corro para a platéia, ávido de atualização? Estranho.
Há pelo menos dois lados a serem examinados na busca de uma explicação: o meu e o do Fam. O meu lado é complicado, e não cabe discuti-lo aqui. Quanto ao lado do Fam, a explicação parece estar nas edições anteriores, ou melhor, na concepção do festival mesmo, que não cruza com o meu lado. Para avaliar essa concepção podemos pensar em filmes e debates. A programação de filmes, desde o início, sofre com a falta de curadoria, ou seja, com a falta de critério de escolha. Centenas de vídeos são enviados à comissão organizadora todos os anos. Os autores em geral são atraídos pela visibilidade, valor central ao âmbito da produção audiovisual, mas infelizmente pouquíssimo questionado. O mesmo acontece, em geral, com os filmes, a diferença parece ser apenas numérica. Mais raros são aqueles procurados pela organização por um motivo qualquer. As seleções são geralmente impressionistas, palatais, dependem de quem topa ajudar a selecionar: gosto, não gosto, é bom, é ruim, “tem problemas”, não tem. Não há criterio, não há direção, não há, em outras palavras, politização do audiovisual, apenas obediência ao senso comum. Acho que isso explica a metade audiovisual: na correria, acaba não me parecendo um bom programa ir até lá ver filmes ou vídeos apenas bons ou ruins, reunidos sem proposta, sem politização.
Mas com isso a segunda metade da concepção fica igualmente explicada. É que também os debates são propostos de forma obediente. Falta, também aqui, politização. O que move os debates, ou melhor, o que parece atrair gente para ouvi-los, quando os há, é o recurso à autoridade. O secretário do ministério, o diretor estadual de qualquer coisa, o presidente da entidade nacional do setor, o superintendente internacional de nãosseiquê, todos estarão presentes na ilha para falar de produção audiovisual: “não posso perder”, cobra-se obedientemente o pequeno público local ávido de atualização. Mas aqui também, na escolha dos debatedores, não há provocação, não há incisão, apenas obediência à autoridade. Não à toa, todos os debates a que assisti em edições anteriores foram pífios: gente falando aquilo que o público parecia ávido por ouvir — ou nem isso. Aqui também, nas falas e nas pseudopropostas, imperam os clichês (veja, como exemplo, a chamada para o Seminário de Cinema e Televisão do Mercosul, em http://www.audiovisualmercosul.com.br/, clicando em Forum). Fui debatedor em duas ocasiões, tentei provocar, assim como alguns poucos colegas, mas não consegui. Os poucos ouvintes não pareciam ter ido até lá para ouvir provocações — apenas clichês.
Concluindo, se o Fam não me atrai, é por se recusar à politização, ou, o que dá no mesmo, por sua obediência provinciana à autoridade e ao ditame da visibilidade. Entre os méritos, concordo, há o clima gostoso de festa cultural, às vezes confundido com “formação de público”. Talvez eu vá.
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to com esta mesma sensação. o fam é que nem roleta russa, o filme pode ser matador ou apenas mais uma jogada furada. mas depois de tantas vezes, perde a graça e queremos emoções novas, adrenalina.
Tenho tido impressões diferentes nos últimos dias.
Primeiro, acho que a revista está caindo num discurso sem saída. Praticamente todos os textos tratam – com algumas diferenças de valores – da frustração e do desejo de um festival mais rigoroso. Realmente não sei onde a gente vai chegar com isso, pois a reclamação é a mesma desde o primeiro ano da revista. Acho que estamos ficando ressentidos, um percurso que parece cada vez mais comum nessa cidade.
Segundo, notei que meus gostos são diametralmente opostos aos do público do festival. Para citar, alguns dos filmes escolhidos pelo júri popular: Inverno, Beijos de Arame Farpado, Blackouts, Guerra de Arturo, Os batedores. Tranquilamente um dos piores do festival na minha opinião. Da mesma maneira, Bazurto, filme que indiquei no meu texto, teve uma péssima recepção na mostra de vídeos.
Sei que nem sempre se trata do filme ser bem recebido. Um filme bom, às vezes, é um filme para poucos. Mas essa impressão do gosto do público me fez pensar que talvez apenas nós estejamos incomodados com o FAM. Ele cumpre bem seu papel. Sua curadoria faz todo sentido. Ela é para um público que não é habituado a assistir filmes e que não vê um festival de cinema como um espaço de proposta política ou estética. O FAM é um evento cultural, e só isso já parece ser o suficiente.
Num exercício de ficção, imagino o FAM com a programação que considero ideal. Creio que a conseqüência direta disso seria o imediato esvaziamento das salas.
Esse dilema, aliás, se assemelha muito com o da própria revista que há tempos nos debatemos. Propor uma crítica radical, mas que pouco dialoga, ou uma crítica não muito rigorosa, mas que encontra interlocutores?
O nó de tudo isso parece ser o fosso que há entre a universidade (ou a educação num geral) e a sociedade.
Caro (e saudoso) Lucian,
Não é de ressentimento que se trata. Nem de dilema. Foi muito bom para a revista você ter sugerido que ela se vê sem saída, tanto quanto se veria um festival de cinema ideal (muitíssimo obrigado!). Bom mesmo, para valorizarmos, aqui na revista (que deve muito a você), justamente essa proposta, de ser sem saída, ou seja, sem aquele público numeroso que estaria à saída, esperando a revista sair. Proposta parecida com a de um “festival de cinema ideal” (contradição em termos). Ou seja, não há dilema na revista, que ao se colocar diante do público segue o exemplo de Zaratustra: não nos importa a multidão, só os interessados, sempre poucos. A diferença entre essa proposta e o ressentimento é total, absoluta (por definição de ressentimento em Nietzsche). Qualquer impressão de frustração relativa ao Fam não lhe cabe (à proposta). Manifestação de desejo sim, perfeitamente, mas não de desejo por um Fam que não há, por um Fam melhor ou mais rigoroso. Simplesmente a proposta da revista nada tem a ver com a do Fam (com magnitude, glamur, patrocínio, salões lotados, autoridades, filas de ônibus trazendo público etc). É preciso lembrar Benjamin: a cultura de massa produz massa. Quando se fala de exibição de filmes, sinceramente, gostaria muito é de ver, aqui em Floripa, ciclos de cinema curados justamente por você e por alguns de seus ex-colegas, sem salas lotadas. Topas? Topam?
Não pretendo aqui escrever com muito glamour…apenas fazer alguns comentários…
Também não pude ir ao Fam, mais por falta de tempo pós-formatura que por vontade. Essa é a impressão que eu tenho, que é só no período da universidade que posso me dedicar a eventos de tal proporção. No mundo real, sem estar no ambiente acadêmico, sobra pouco tempo e espaço para ir ao Fam. Talvez ainda dê pra pegar uma sessão das 21h..como num cinema qualquer…sorte dos que ainda podem curtir o Fam…=)
Mas concordo com o Felipe que falta uma curadoria melhor. Só não sei se concordo com o tipo de filme que me pareceu ser proposto.
Recuso o Fam muitas vezes por me apresentar trabalhos vazios, em que saio da sala me perguntando se o que entendi era o que era pra entender….e me desculpe…recuso esse tipo de cinema…mas é claro que é gosto meu.
Os argentinos ainda dão um banho em nós.
E gostei bastante do que o Lucian escreveu, me pareceu alguém pós-formado caindo um pouco na real, desviando um pouco da trajetória que o curso continua insistindo.
Só discordo que filmes bons são pra poucos…filmes bons somos nós que achamos…diante do nosso repertório…acho que qualquer filme tem potencial de qualquer coisa e pra qualquer discussão…sempre vai depender de um mediador…..
No nosso caso…acadêmicos ou profissionais do cinema, mesmo um filme como “Segurança Nacional”, ridiculamente fraco em narrativa mas extremamente rico para discussão de um cinema feito em Santa Catarina, que sequer foi citado por aqui.
O filme foi rodado 70% por aqui, usou profissionais e locações daqui, basta ver os créditos finais. Demonstra uma qualidade técnica até então não vista, mas ainda sem uma linguagem própria, apenas reproduzindo o cinema hollywoodiano.
Quanta gente envolvida, quantos empregos e trabalhos foram gerados, uma verdadeira mobilização social. Os alunos da escola onde dou aula, fizeram figuração, tem histórias pra contar. É talvez o sonho de poder acreditar que é possível viver fazendo cinema, mesmo que ainda demore pra ter mais conteúdo, a prática faz a perfeição. Em qualquer arte é assim. Aperfeiçoamento.
Mas eu desisti de enviar textos pra essa revista. São sempre os mesmos que escrevem, sempre com as mesmas opiniões e críticas.
Sempre tão “do contra” de tudo.
O último texto que enviei, nem retorno recebie nem retorno do pedido de retorno.
Total desinteresse.
Tudo bem, talvez eu não escreva dentro dos parâmetros esperados, mas ainda acho que a discussão é mais rentável que o esvaziamento.
Eu que dou aula há 3 anos (apenas) para adolescentes, percebo que apenas falar dos filmes cults é afastá-los da discussão, mas se puder relacionar com aquilo que eles assistem, a discussão fica rica. Aula chata não vai adiantar. É preciso interessá-los, instigá-los. Preciso ver o que eles vêem, preciso entender a “massa” para propor algo diferente. É nisso que eu acredito.
Então propor uma revista para poucos é um despercídio. É uma péssima administração e é jogar fora uma grande oportunidade. Foi ler isso que me instigou a escrever. Essa atitude me choca. Não é por causa dessa revista que não vou seguir adiante, mas o que se fala aqui só cria uma ilusão, um ideal utópico. Eu realmente estou curiosa pra ver aonde tudo isso vai levar.
Não precisa ser uma coisa ou outra. Não precisam ser discussões apenas em torno de um cinema comercial (a verdadeira possibilidade de ganha-pão), mas não apenas em torno de um cinema completamente alternativo. Ou opiniões tão radicais.
Vocês excluem aqueles que não se enquadram nas suas regras. Essa revista é completamente elitizada e formada por pessoas que pensam da mesma forma. Ou seja, mesmo contra um tipo de cinema ou opinião, e a favor de discussões ricas e que saiam do senso comum, existe o grupo dos excluídos. Aqueles que não tem voz. Em nenhum momento. E é um grande grupo.
Não vejo um calouro escrever aqui e vocês não ficarão na universidade pra sempre. A revista não parece ter a possibilidade de perpetuar. Ficou meses sem edição. Me desculpe, mas dizer que a proposta dela é fazer uso de poder de forma imprópria.
E acho que a revista é do curso. Deveriam haver muito mais opiniões aqui, dos acadêmicos de cinema, porque não é justo que essa revista represente o curso, como se diz. Uma pena. E um desperdício.
Se é para poucos, anunciem isso. Não anunciem que é do curso. O cineclube não é justamente uma possibilidade de levar o cinema para um público que procura sair do senso comum? Uma chance de voz?
É preciso conciliar as duas coisas. Atrair o público, mas propor algo diferente. Qualquer filme que se consagrou na história do cinema utilizou essa fórmula. Coisa que vemos pouco no Fam, nessa revista e no curso de cinema.
Não é com essa mentalidade que alguma coisa vai mudar. Que alguma coisa vai ser diferente.
Não precisamos de salas lotadas. Precisamos de salas lotadas de interessados em fazer algo diferente e que querem ver algo diferente. E isso realmente é um desafio. Ao invés de não se preocupar, deveriam sim se preocupar, mesmo que a sala não lote.
Ou os filmes vão morrer na garagem, como muitos dos que devem ter sido feitos e morreram. Provavelmente muita coisa boa.
Não há como fugir do sistema, fazendo parte dele. Quer dar aula? Fazer filme? Escrever na revista? Criticar? Ter uma profissão que goste? Vai ter que dançar, mas aos poucos alguam mudança pode acontecer. Aos poucos e com muita luta.
E me desculpe mas mesmo aquilo que não foi realizado como produto de massa, passa a ser, segundo Vanoye e Carriere. A moda vem, mas vai embora. As impressões ficam. Qual será o próximo movimento revolucionário do cinema a ser copiado?
O que enxergas como ressentimento é uma questão de estratégia. Ressentimento é um vetor em sentido contrário, e a glória é um vetor no mesmo sentido. A revista não quer negar o FAM, ela tem uma edição só para ele. Mas a atitude estratégica, sem tirar nem pôr, que deve ser a do crítico, é esvaziar. Sem ressentimento porém negando a glória. Tentar sempre mais uma volta. A partir daí lançar-se ao desejo, abrir-se mesmo, no texto, expor-se para fazê-lo (com o FAM) produzir. Atitude que só vi da tua parte, até agora. Como expor as feridas que precisam de cura? Como, na série de machucados, expor a outra, de imagens, que escolheste como curativos? Fazer da curadoria um ensaio. Escrevê-lo mesmo. Tudo isso é abrir o FAM, para a crítica, inclusive.
Não acho que o festival seja adequado nem à própria proposta. As mostras de vídeos são inexplicavelmente vazias, e sempre sobram lugares nas sessões da 19 e das 21h. Exceção feita às exibições de filmes catarinenses que conseguem mobilizar um público maior (e o famigerado júri popular), mas sempre na defesa de um regionalismo provinciano. Mesmo como evento cultural o FAM está estagnado. Ele sim é um exercício de ficção: fazer-se cada ano mais enxuto, mais funcional, sem grandes investimentos, sem uma proposta ousada de curadoria, ver até onde vai, até onde “cola” tal ficção.
Os filmes serem vistos, os textos serem lidos é outro problema de estratégia. Mas um problema que não pode se cristalizar como norte único e imediato. Seguimos no debate. Abraço.
Sim, estratégia que garante o sustento de muitos, fórmula “certa” que engasga. O provincianismo que ouço o professor Felipe falar a tantos e tantos anos é que faz “lotar” as salas. Num dia foi apresentado um “documentário” de uma aluna do curso de História da UFSC, sem mérito nenhum, muito ruim mesmo. Mas, lá estava na platéia seus amigos, colegas, família. E? E ele foi um dos dois mais votados do dia. Óbvio, não?
É como ir na “mostra universitária” (que foi programada sob pressão de professores e coordenadores do curso de cinema da UNISUL, segundo consta porque os vídeos de seus alunos não haviam sido selecionados!) e ver os apalusos serem “puxados” pelo professor!
É triste, mas o sustento dessas pessoas pode depender disso. Crítica? Nenhuma.