por André Zacchi
Quatro curtas, no mínimo heterogêneos, preencheram a grade de programação do FAM desse domingo à noite. O primeiro, Inverno, de Paulo Trejes, teve sua sessão precedida pela sinopse e pelo discurso do diretor que afirmavam tratar do tema da culpa. O ritmo frenético do filme até o acidente e sua lentidão posterior podem tentar fazer rima com a situação da personagem tetraplégica. Mas não é ela a protagonista. Assim, a contemplação da natureza bela e exuberante, os planos de ondas quebrando no mar, dia e noite, são de certa forma oníricas e apaziguadoras, destoantes do sentimento de Paula. Do mesmo modo os planos das garotas, sempre bem vestidas, bem iluminadas e fotografadas dizem pouco da culpa que uma sente ou da angústia que afeta a outra. A culpa não é posta em cena, a não ser nos diálogos. Se o clima é mesmo de leveza para tratar de acidente, culpa e suicídio, corre-se o risco de se afastar dos temas, trocando-os, talvez, pela tentação de pôr somente a beleza em cena.
O segundo filme da noite, O nome do gato, suspende as certezas da linearidade narrativa através de delírios compartilhados entre a protagonista e o apartamento onde mora. Bruna muda-se para um apartamento antigo, veste-se um tanto old fashioned, está apaixonada pelo colega de trabalho, tem um gato branco. O apartamento conserva uma memória própria, deixando rastros para sua atual habitante. E é o olho mágico que faz a passagem para essa memória e reescreve os acontecimentos, mas deve ser visto de fora para dentro. Fala menos do nome do gato ou de sua cor, do nome da protagonista (Bruna/Taís) ou de sua roupa (seu hábito). A aposta no anacronismo e na memória que o próprio apartamento articula e compartilha com seus habitantes são as minhas chaves de leitura. A remissão didática ao sonho e o excesso de explicação fazem, entretanto, o filme perder o efeito de surpresa e de indefinição valiosa com relação às imagens. A demora em algumas cenas contrasta com certa pressa no corte em outras, fazendo do filme um todo bastante irregular, talvez falhas evidentes, talvez uma desejada sintonia com os sobressaltos da memória.
Insano Jazz faz uma experiência de pintura e música. As imagens sonoras expressivas (os agudos metálicos do Jazz) tentam dialogar com imagens de aquarelas bastante coloridas que desfilam freneticamente. A repetição de imagens e do colorido aliados
à montagem ritmada fazem do Jazz algo previsível até o final, longe da insanidade proposta pelo título.
Recife Frio propõe uma forma documental para falar de um acidente natural: a baixa temperatura na cidade pernambucana. A excelente ideia de colocar o narrador como repórter de uma televisão argentina, acrescida à entrevista com um dono de pousada francês dão uma espécie de autoridade e verossimilhança indispensáveis para que o espectador “compre” o filme. Contrato feito, torna-se pura diversão: a entrevista com a família de classe alta, a disputa pelo quarto de empregada, a adoção de pingüins, o tufo de algodão do homem do tempo. Mas é quando o filme encontra as pessoas mais simples que ganha a maior consistência em seu discurso de humor. Como fazer um morador de rua representar tão bem? E um vendedor de artesanato sedimentar a idéia de que o Recife agora é frio, discurso confirmado pela mudança nas mercadorias que vende? Muito consciente da manipulação que necessita realizar e do ritmo que precisa imprimir para que o humor encontre seu timing, o filme vai ganhando corpo até as sequências do shopping e da ciranda, menos divertidas e um pouco demoradas, mas que não chegam a nublar o riso.
You may also like
-
Retratos do Comércio: a pose e as identidades, por Alvaro Diaz
-
Entre o saber e o não-saber: David Lynch e a experiência da montagem, por Rodrigo Ambroni
-
Inquietações, por Julio Aied Passos
-
Roman Polanki, ou os contracampos do caos, por Flavio Dias
-
O piano: Uma ode à vontade e ao desejo, por José Augusto Gomide
