por Tiago De Carvalho
Recuperação da memória cinematográfica da Cinédia (claro, e por que não brasileira?), homenageada pelo FAM deste ano, e nostalgia do tempo daquelas produções. Oriundos desse misto, O samba da vida e 24 horas de sonho, dentro da mostra Cinédia 80 anos foram exibidos em seqüência na tarde de sábado.
Há de se destacar a distância histórica da qual me encontro com relação à essas produções, datadas dos anos 30 e 40. São nostálgicas de uma forma inacessível ao jovem que aqui escreve, os antigos sambas e a alegria daquele tempo dito inocente e maravilhoso. Os prósperos anos entre guerras.
A narrativa insossa de O samba da vida, em uma cópia maltratada, sobressai-se pelo famigerado “carioquês” de seus personagens masculinos, o filósofo Pedro Paulo, que ocupa uma mansão vazia ilegalmente junto de sua família e dos chefes de polícia. Devido a problemas na cópia, som dessincronizado, baixo ou mesmo inexistente e os cortes saltados entre muitas cenas, o humor malandro tão mencionado e posto em ação pelos personagens masculinos nos filmes de comédia ou mesmo nas chanchadas da Cinédia sai prejudicado. Digamos que a fruição fica comprometida. As histórias paralelas, os acontecimentos na mansão e as filmagens de um musical, são demarcadas principalmente por uma montagem incomum, fade-outs e fusões que simulam formas geométricas (similares àquelas que encontramos em antigas filmadoras de fita cassete). O encontro dessas duas histórias ao final, com a família assistindo à filmagem do musical no qual uma das filhas se torna protagonista, é a celebração ao ato de celebrar a vida cantando sambinhas consagrados da década de 1930. A alegria do samba, o samba da vida. Mostração de fato, com um final feliz. Menos para as coadjuvantes da última cena no musical, claramente constrangidas por estarem desfilando ali.
24 horas de sonho parte de uma premissa curiosa, potente, nonsense: ao tentar se suicidar pela 43ª vez, Clarice encontra-se com Cícero, que a impede de consumar o ato. A partir daí, o ato de se suicidar é banalizado, se torna uma piada e reaparece algumas vezes até o momento em que o filme descamba para o drama com pitadas de humor. Evidente, a morte aparece somente como piada, “tabu” tanto pra este quanto para o primeiro filme, que insistem em celebrar a vida de qualquer forma. Pelo samba, de preferência. Clarice, com tantos diplomas e até mesmo um troféu pelo número de tentativas de suicídio em um curto período de tempo, envolve-se em confusões num hotel de classe alta até encontrar o verdadeiro amor. Optaria pelo suicídio, pareceria mais divertido.
Na Mostra de Vídeos Mercosul, Vestígios do tempo focaliza um flashback do protagonista enquanto jovem, motivado por…alguma coisa? Talvez. Bazurto, animales alimentos de hombres é um suposto documentário “observacional” (a câmera realmente não alterou ou modificou o cotidiano daquele lugar?) que registra cortes de carnes variadas (vaca, galinha, peixe) acompanhados por falas de cunho religioso e sobre a amizade. Comida enquanto atividade cultural demarcada pela religião, presente talvez enquanto comunhão social. Alimentação da alma e do corpo à custa da morte dos animais vistos ali. Discurso vegetariano? Talvez. Mortes necessárias justificadas pela religião? Quem sabe…
Já a ficção Até o fim do dia se destaca por acompanhar de forma sóbria a volta de um jovem, após anos morando fora, à casa de seu irmão. Seu retorno traz consigo a revelação de que ele está morrendo de câncer no cérebro e, provavelmente, decidiu passar seus últimos dias ao lado do irmão. Eles viverão sob esse estigma. Avós, misto de imagens registradas por um menino e seu avô, faz da “subjetiva da câmera” seu maior trunfo. A estética do vídeo envelhecido exalta a nostalgia da juventude passada com as avós. Os presentes que o menino ganha em seu aniversário são o estopim de registros de conversas desconcertantes com suas avós judias, a força da realização em vídeo.
Áurea, mais um suposto documentário “observacional” entremeado por depoimentos, registra a força do olhar melancólico da cantora de bar Áurea nas suas atividades cotidianas. A força da produção reside na consciência que o vídeo não tem acesso a essa expressiva melancolia, é impossível explicitá-la. Ela diz respeito somente a Áurea.
Por fim, 7 voltas é uma ilustração de impressões e produções escritas sobre a região na qual a cidade de São Paulo foi fundada. Os encontros entre as narrações e suas respectivas animações produzem um estudo e jogo no qual me senti alheio.
Enquanto isso, na Mostra de Curtas Mercosul, Inverno peca pela trilha sonora que encobre a melodramática narrativa sob o estigma da culpa, mas que nada desenvolve sobre ela. O sentimento é pano de fundo, explicitado poucas vezes, adorno que pede para ser roupa íntima, primeira roupa, base do vestuário. O nome do gato joga com projeções da protagonista com relação ao apartamento que irá alugar: as expectativas, sonhos e devaneios de um futuro possível que não irá acontecer. Interessante jogo da ficção enquanto realidade forjada. Insano Jazz é um aglomerado de formas em movimento (animação experimental?) em descompasso como o bom jazz que o acompanha. Já o falso documentário Recife frio, último curta da noite e o melhor do festival até então, usa do senso comum para ironizar um acontecimento ficcionalmente extraordinário, fantástico, supostamente legitimado pela narração em espanhol, pelo tom de reportagem séria. O curta explora as conseqüências do surgimento de um meteorito numa praia de Recife, sobre a vida dos moradores e na própria cidade. Conhecida pelas altas temperaturas durante todo o ano, a cidade acaba congelada após meses depois do incidente. É nesse ínterim que o falso documentário se passa, explorando elementos culturais dos moradores de Recife e até mesmo brasileiros: o turismo, a maneira como lidamos com o frio e a chuva e as relações entre as classes sociais diante desse problema. Realizadores brasileiros emulando o ponto de vista estrangeiro sobre um acontecimento ficcional brasileiro. A ficção impera.
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