O mundo como senha e a obra como troca

Rosa Daitx[1]

O que o mundo significa para nós? A rotina diária de nossas vidas é a nossa experiência individual e também em grupo. Para alguns, poderá ser acordar às oito da manhã para trabalhar o dia todo e retornar para a casa no final da tarde. Para outros, poderá ser diferente. Mas o mundo real é tanto aquele em que estamos como aquele que nos escapa ou do qual escapamos. Não somos capazes de, muitas vezes, perceber na correria tumultuada da vida as possibilidades de um mundo diferente. O cotidiano se torna tão comum em nossa sobrevivência que passamos desapercebidos pelas possibilidades do que existe para viver. É justamente nesse novo que encontramos, por meio da arte, condições de aberturas.

Segundo Cauquelin, a arte possibilita um mundo aberto. O aberto seria o mundo em que a obra de arte é capaz de ultrapassar o domínio próprio de si mesma e se projetar para o além, possibilitando pensar que existe uma pluralidade de mundos possíveis para arte. “Essa simples constatação permite vislumbrar que de certo não haveria um único e propalado ‘mundo aberto pela arte’, e sim uma pluralidade de mundos sobrepostos ou emaranhados”.[2] Como chegar nesse mundo aberto? E como reconhecê-lo? É preciso considerar um caminho diferente, mas possível de ser encontrado, quando nos permitimos explorar e principalmente viver o que a arte nos oferece.

Para Cauquelin, responder a pergunta de como encontrar o mundo aberto em uma determinada prática artística, ao mesmo tempo em que o mundo é percebido como único, é o que alimenta uma boa parte dos discursos entre arte e fenomenologia. O que nos interessa ao pensar o mundo e a fenomenologia não é o fato de esquecermos e nos acostumarmos com o que já sabemos ou com o que estamos aprendendo no mundo em que vivemos, mas o de estarmos atentos para ver e encontrar algo novo na mesma coisa que de alguma forma já conhecíamos. Ou seja, incluir os fenômenos da experiência de olhar para o mundo. Sendo assim, podemos atribuir a esse mundo fenomenológico a possibilidade de termos senhas. As senhas são como um jogo entre a realidade e as possibilidades de encontrar algo novo no que já estamos acostumados a ver e ouvir. Baudrillard diz que as senhas equivalem a penetrar no interior das coisas, sem ter que ordená-las em um catálogo.

O mundo e as senhas

Segundo Baudrillard, podemos pensar as senhas através da palavra, objeto, valor, troca simbólica, sedução, o obsceno, a transparência do mal, o virtual, o aleatório, o caos, o fim, o crime perfeito, o destino, a troca impossível, a dualidade, o pensamento, a palavra final. Trata-se de um modo de penetrar no interior das coisas sem que elas sejam ordenadas em um catálogo, pois elas renovam o que está no mundo por serem geradoras eportadoras de ideias. A senha existe para pensar o que quer dizer do objeto, qual seu significado, ou melhor, quantas possibilidades de significados são possíveis através do objeto. O objeto sugere uma correspondência tal que para ser encontrada é necessário um esforço para descobrir as possibilidades lógicas entre objeto e mundo. O valor divide-se entre o valor de uso e o valor de troca. Entre os dois valores dialéticos em que se percorre a racionalidade com a tentativa de manter o controle entre uma troca possível entre as coisas.

No entanto, é possível considerar a ideia de que toda troca ocorra pelo valor ideal do mercado. Existe a troca por valores morais e estéticos, e a troca simbólica entraria no ideal em que o valor não corresponde diretamente ao produto, a troca nem sempre será possível, e como exemplo temos a vida e a morte, uma não tem como ser trocada pela outra. Já a sedução entra em questão quando ela contrapõe a produção. O que propõe Baudrillard é que “A antropologia oferece o exemplo de sociedades e culturas em que a noção de valor, tal como a entendemos, é quase inexistente”.[3] A sedução não faz surgir coisas, nem fabrica e muito menos produz algo para o mercado. Ela está mais para o valor da troca simbólica, porque o jogo da sedução é seduzir e não comprar alguma coisa. O símbolo nessa categoria possui força maior do que o produto. O obsceno aqui está para o envolvimento espetacular com as coisas existentes no mundo, entre a vida e entre nós mesmos. O espetáculo dá margem e aprovação à obscenidade, não distingue cena e obsceno, que não se separam um do outro, apenas se unem entre tudo e se misturam em uma coisa só, não possibilitando distanciamento de fatos e atos. Segundo o autor, quando a cena existe o olhar se distancia e aparece o jogo, e o espetáculo acontece ali, na cena:

Régis Debray fez, a partir deste ponto de vista, uma interessante crítica da sociedade do espetáculo: Segundo ele, nós não estamos, em absoluto, em uma sociedade que nos afastaria das coisas, em que seríamos alienados devido à nossa separação delas. Nossa maldição é, ao contrário, a de estarmos super aproximados delas, de tudo ser imediatamente existente como realidade concreta, tanto nós como elas. E este mundo excessivamente real é obsceno.[4]

O obsceno é o que nos levaria à transparência do mal, porque a obscenidade é transparência total das coisas, porém, segundo o autor, a transparência total nos obriga a aplicar regras e estratégias de vida. Para Baudrillard, tudo o que é transparente também é o contrário. E o contrário seria o segredo. E o segredo é independente de qualquer tipo de moral, maldade ou bondade. Para o autor, a transparência do mal seria justamente o segredo do que se passa no que é visível, mas que só pode ser revelado em segredo.

O que era simplesmente secreto, isto é, algo a ser trocado em segredo, torna-se o mal ser abolido [e] exterminado. Mas não pode ser destruído: de certo modo, o segredo é indestrutível. Ele vai ser, então, satanizado e vai passar através dos próprios instrumentos usados para eliminá-lo.Sua energia é do mal, é a energia que vem da não unificação das coisas – definindo-se o bem como a unificação das coisas em um mundo totalizado.[5]

Ao contrário do segredo, que se for totalmente revelado se torna maléfico, temos o virtual, que se revela não mais como um exagero ao passar do simbólico para realidade, mas sim como uma hiper-realidade. Para o autor a realidade virtual é perfeita, controlável e não contraditória. “Por conseguinte, como ela é mais ‘acabada’, ela é mais real do que o que construímos como simulacro”.[6] Contrapondo essa realidade controlável, o autor fala sobre um mundo aleatório do qual nós e as coisas fazemos parte ao mesmo tempo, e até mesmo nosso pensamento aleatório faz parte do mundo nos levando às incertezas radicais do mundo, que não são mais do que acontecimentos aleatórios.

Entretanto, por mais que se busque uma finalidade ao mundo, a fim de completá-lo e encontrar soluções, é impossível, sempre haverá algo para reverter o ideal da perfeição, e linearidade é ilusão. A ilusão, de acordo com o autor, obteve um empenho de todas as culturas em gerir ilusão com ilusão e mal com o mal. Se conseguíssemos reduzir ilusão com a verdade, isso já seria uma ilusão, e a solução final seria o extermínio, o que substituiria a morte dando origem ao que seria o crime perfeito.“O crime perfeito destrói a alteridade, o outro. É o reino do mesmo. O mundo se identifica consigo mesmo, é idêntico a si mesmo, excluindo todo principio de alteridade”.[7]

Ao trocar, buscamos sempre obter uma solução, trocamos uma coisa pela outra, que possa suprir uma necessidade maior, mas isto é ilusão. De alguma maneira a troca é falha. Para o autor esta falha pode estar relacionada à tentativa de troca com relação ao mundo. Porque o mundo não é trocável por nada. Não é possível dar um preço ao mundo. Não temos como acabar com o mundo real. A virtualização trabalha em prol da redução da ilusão com a verdade, o que o autor chama de exterminação. A exterminação seria a substituta da morte, serviria como privação da dualidade de conflitos entre vida e morte, onde tudo se torna uma coisa só, uma única forma de pensar. “traduziria em todas as nossas tecnologias – hoje, sobretudo em nossas tecnologias do virtual”.[8]

De acordo com Baudrillard, a virtualidade retira do mundo real sua função em relação ao sentimentos sobre os destinos, conflitos e mortes. As emoções estariam mortas, não teríamos mais a necessidade de sofrer por nada, os conflitos não existiriam mais, e o que poderia ser negativo se tornaria um nada, e o mundo se tornaria uma coisa só, e isto seria o extermínio da realidade. “A exterminação seria a partir de então nosso modo de desaparecer, o que teríamos como substituto da morte”.[9] Porém, existe uma cumplicidade entre destino, em que o afastamento parece não existir, por haver uma certa insistência em acontecer coisas do destino que provocam encontros mesmo que não ocorram intenções.O texto “A troca impossível” começa dizendo que todo objeto possui valor de troca. No entanto, o destino não é objeto, e não há possibilidade de ser trocado por algo. Não temos como por exemplo trocar o sexo de um bebê no ventre, assim como não podemos trocar a morte pela vida. Por mais que tenhamos vontade de comandar o mundo, segundo o autor “é o mundo que nos pensa”.[10]

O destino reverte tudo o que planejamos em algo que foge ao nosso controle de escolha. Conforme o autor, jamais dominaremos a realidade e o signo ao mesmo tempo, e esses são mundos que correm paralelamente. A unificação dos mundos é impossível, e a reversibilidade (destino) nos tira o poder de escolher e unificar o mundo. Tal reversibilidade é uma forma antagônica aplicada ao mundo, onde existem dois princípios eternos, o bem e o mal. O mal segundo o autor é a energia do mundo, e a perversidade das coisas é o objeto de indagação. O bem está no mundo como uma forma moral, de controle entre certo e errado, gostar e não gostar é uma ordem, um princípio, e o mal está nele para contrariar, questionar e duelar com todos os nossos princípios de poder sobre o mundo e as coisas do mundo.

A dualidade supõe, se retomamos a conhecida metáfora do iceberg, que o bem é a décima parte, emergente, do mal… E, de tempos em tempos em tempos há uma reversão, com o mal tomando o lugar do bem; e a seguir o iceberg se dissolve, e tudo retorna uma espécie de fluido em que o bem e o mal se confundem.[11]

As senhas são as possibilidades de estruturas das redes de informações e de um sistema tecnológico que modificam o raciocínio e o pensar e agir na contemporaneidade. Mas iremos utilizá-las para o pensar e agir da arte de Paulo Gaiad.

A diferença insubstituível e a troca.

Paulo Gaiad não é um artista que trabalha apenas com uma modalidade de suporte ou meio. Em seu percurso com a arte já nos apresentou gravuras, litogravuras, pinturas, fotografias entre outros recursos artísticos e poéticos. É um artista que experimenta e que nos faz refletir sobre a diferença e a generalidade e possui uma liberdade de expressão singular e incomum. Isto pode ser observado quando concebe certos trabalhos em que o gesto da troca, tal como no caso de Atestado da loucura necessária ou a vaca preta que pastava em frente à minha casa, de2003/2008. Em 2003, o artista estava justamente num momento em que não havia produção. Um dia, parado, observando pela janela de seu atelier se deu conta de que em frente a sua casa existia uma vaca preta que ficava pastando todos os dias. Ao observar a vaca,sentiu-se como ela, ruminando, pastando e tomando água repetidamente todos os dias. Foi quando teve a ideia de realizar uma convocação através da internet, pedindo que as pessoas enviassem pequenos textos com frases, sinais, palavras, símbolos, para servir de partes de um texto único. Em troca, o artista devolveu para os participantes um texto escrito por ele de 50 páginas, que fala sobre diversas coisas que poderiam levar e diagnosticar a loucura.

Figura 1: Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente daminha casa, 2003.Fotografia, texto e acrílica sobre tela. 140 x 200 cm. Fonte: Imagem cedida pelo artista

Como podemos observar na figura 1, a palavra está presente na obra, existe nela um mistério, porque ao mesmo tempo em que possui uma revelação, também possui um segredo, pois não conseguimos ler o texto que ali se encontra. Para o Paulo, a palavra serve não só como uma porta de entrada para ele criar, mas também como uma senha que concede uma linguagem. “a linguagem pensa, nos pensa e pensa por nós – pelo menos tanto quanto nós pensamos através dela. Também aqui há uma troca, que pode ser simbólica, entre palavras e ideias”. Essas são as palavras que iniciam, que apontam para o desenrolar dessa obra de arte. As ideias e as palavras se misturam em uma coisa só e transformam o que está entre elas em algo que é novo. Para jogar é necessário descobrir as senhas: “a palavra ‘senhas’ permite, a meu ver, reaprender as coisas, unindo-as em um todo coerente e, ao mesmo tempo, abrindo-as a uma perspectiva mais ampla, panorâmica”.[12]

Figura 2: Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa, 2003-2008. Fotografia sobre papel jornal. Fonte: Imagem cedida pelo artista

Na figura2 vemos um animal que não deixa de ser um símbolo: a vaca. Ora, a vaca que pasta no pasto durante o tempo em que nele estiver [óbvio]. A vaca que para nós, pessoas comuns, em nosso mundo comum, nos remete apensar apenas sobre o leite e a carne. Para nós, que não somos artistas, quando olhamos a vaca, encontramos uma única hipótese: da utilidade e da troca que permitirá obter uma vantagem financeira valer a pena carnear, produzir leite ou criação de rebanhos. No entanto, para Gaiad a vaca vai além do valor de mercado. O artista explora o mundo comum, se apropria do cotidiano e chega na troca onde joga com a realidade e a imaginação, fazendo da “ troca” um lugar de jogo e assim, descobre a senha para chegar ao devir de possibilidades da abstração com a vaca que pastava em frente sua casa.

De acordo com Baudrillard, “as coisas não se trocam nunca diretamente uma pelas outras, mas sempre por mediação de uma transcendência, de uma abstração”.[13] Isso ocorre porque existem valores de mercado e valores morais e estéticos.

Paulo vê além do olhar cotidiano, posicionando-se no lugar da vaca, onde o ruminar o pasto verde poderia ser o ruminar dos costumes de todos os dias. O conforto de nunca questionar a vida e apenas sobreviver. Para Gaiad, a vaca não era apenas um símbolo comum, ela era uma reflexão diária sobre a vida. Ela estava ali todos os dias na sua frente, repetindo suas ações cotidianamente. Paulo se permite jogar com a vaca e com a vida. Ele faz desse jogo a sua obra de arte e impõe um modo incomum para nos fazer pensar a vaca e a vida. Conforme Baudrillard, o jogo impõe modos diferentes de entrar na jogada e de fazer trocas. O artista faz exatamente isto: encontra a diferença, descobre a senha do jogo e depois nos devolve uma nova jogada para que tenhamos ou não o interesse lúdico e poético. É necessário buscar no artista todos os seus segredos possíveis, para conseguirmos enxergar o mundo com seus olhos. Quando nos damos conta de que na verdade a vaca poderá até ser mais feliz que nós humanos e que somos de alguma maneira colocados no mesmo papel que ela, nos desestabilizamos e assim conseguimos acessar as reflexões e as mensagens incógnitas possíveis nesta obra de arte. É como se tivéssemos pedindo emprestado seus olhos para ver o que não enxergamos para que a sensibilidade nos tome conta e possamos enxergar a vaca além do valor de mercado e do senso comum.

 

Figura 3 Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa, 2003-2008. Fotografia sobre papel jornal. Fonte: Imagem cedida pelo artista

Admitamos: não é foi fácil brincar com a vaca preta de Gaiad, posto que estranhamos o que o artista está nos dizendo: esta vaca não é mais uma vaca; precisamos enxergar além da cultura; devemos nos distanciar de nós mesmos para poder ver as reflexões possíveis de um mundo aberto para gerar novas possibilidades. A figura 3 nos mostra uma vaca descansando ou ela está pensando? Paulo ironiza o mundo com a vaca. Na correria atual do mundo e do consumo talvez a vaca tenha mais tempo que nós para descansar e nos ver. Ele tenta nos levar a outro mundo para que possamos refletir sobre nós mesmos; para que seja considerado um estado de loucura, é importante que possamos nos retirar da realidade para a ilusão. Existe a oferta de uma troca entre realidade e ilusão: é uma escolha livre. Podemos ou não aceitar entrar no estado de ilusão e descobrir algo novo. É como a senha do princípio do bem e do mal, em que, aparentemente, o bem parece ser a melhor escolha, porque é confortável e aceito porque é uma regra comum e o mal é o que contraria a regra, e nem sempre o mal é fazer mal para alguém, porque o mal está ligado a uma questão moralista. Podemos não querer concordar com algo que é uma regra, porque a regra também pode estar equivocada e ser um mal. De acordo com Baudrillard, o bem está para ordem, vem para regular, equilibrar e o mal está para dualidade é uma fonte de energia que surge para contrariar e colocar em dúvida o que se diz ser o bem. É o antagonismo entre bem e mal. Assim é a vaca preta do Paulo Gaiad, um antagonismo entre ser e não ser louco.

 

Figura 4. Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa, 2003-2008. Instalação. Fonte: Imagem cedida pelo artista.

Paulo escolheu entrar poeticamente no ser da vaca, podemos dizer que de corpo e alma, olhando e refletindo sobre o mundo a partir de um olhar penetrante, buscando o que está além da banalidade diária. A figura 4 representa uma performance feita pelo artista quando ele aceitou uma convocatória da USP, ficando por 12 dias no Paço das Artes e se propôs a ficar redigindo um texto do Atestado da loucura em um papel colado no chão. Na parede à sua frente, o artista colou uma imagem grande de sua vaca preta, amarrada em uma cordinha como se fosse para não fugir do local.

 

Figura 5. Paulo Gaiad. Atestado da loucura necessária ou A vaca preta que pastava em frente da minha casa,2003-2008. Instalação.Fonte: Imagem cedida pelo artista

Cada página do texto escrito, o artista imprimia e colava em uma folha branca que se encontrava na parede à sua frente, permitindo que cada pessoa que passasse pelo local pudesse ler o texto. Essa atitude de ficar horas escrevendo no chão, colando textos em parede é um convite para a interrogação sobre o que significam uma vaca preta na parede e um homem sentado e às vezes ajoelhado ou deitado no chão escrevendo? A atitude de ficar exposto escrevendo algo que não sabemos o que significa nos leva ao jogo da sedução. Para Baudrillard, a sedução contrapõe a produção, e não é uma questão de fazer surgir ou fabricar coisas que possam ser consumidas em mundo do valor de mercado, mas é um desvio que acontece ao propor uma troca. Seu convite foi sedutor, atiçou a curiosidade, utilizou a imagem da vaca que é um símbolo comum e trocou, reverteu os sentidos da imagem para algo que não é comum. Uma vaca dentro de um espaço artístico, uma vaca que, assim como o artista, rumina textos e o ajuda a regurgitar novos textos, como uma vaca que atrai os que por ela passam. O mundo das formas, que envolve

sedução, desafio, reversibilidade – é o mais poderoso. O outro, o mundo da produção, tem o poder, mas a potência está do lado da sedução. Eu acho que ela não é a primeira em termos de causa e efeito, em termos de sucessão; porém, a um prazo mais ou menos longo, é mais poderosa que todos os sistemas de produção – de riquezas, de sentido, de deleites… E todos os tipos de produção lhe estão talvez, subordinados.[14]

A sedução da vaca preta de Gaiad é como um jogo da troca predestinada ao devir e à ilusão,que não possui valor de mercado, porque mesmo que alguém compre a obra do artista, o impossível não é a obra pronta e sim a apreensão do momento em que ela foi sendo feita e vivenciada. “A meu ver, a troca é um engodo, uma ilusão, mas tudo nos leva a agir de forma a que se possam trocar as ideias, as palavras, as mercadoria, os bens, os indivíduos”.[15]



[1] Rosa Virginia R. Daitx, graduada em Artes Visuais – Licenciaturapela Universidade da Região de Joinville, Univille (2008). Especialista em Educação de Jovens e Adultos e Educação na Diversidade pela Ufsc (2013). Especializanda em História da Arte pela Univille (2013). Possui artigos e publicações sobre curadoria e arte. Coordenadora da EJA Continente II, em 2011, Florianópolis. Professora de Pós Graduação do Ipgex, 2013.

[2] Cauquelinn, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. Tradução Dorothée de Bruchard. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 84.

[3] Baudrillard, Jean. Senhas. Tradução de Maria Helena Kuhner. Rio de Janeiro: Difel, 2001, p. 14.

[4] Idem, p. 30-31.

[5] Idem, p. 35-36.

[6] Idem, p. 42.

[7] Idem, p. 62.

[8] Idem, p. 61.

[9] Idem.

[10] Idem, p. 66.

[11] Idem, p. 77.

[12] Idem, p. 8.

[13] Idem, p. 14.

[14] Idem, p. 26-27.

[15] Idem, p. 70.

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