Palavras finais

hoje me levantei decidido a fazer um agradecimento à vida. Como todos os dias, acordo para esperar o primeiro canto dos bem-te-vis, dos sabiás, dos joões-de-barro, que moram por aqui, e da revoada da imensa quantidade de papagaios que toda manhã e final de tarde fazem seu movimento sobre a minha casa, para dormir e acordar nos eucaliptos aqui bem perto.

me levantei pensando na vida que me foi permitida, não por desígnio de deuses, comum nas crenças que eu não tenho, e sim na vida que eu me permiti e busquei.

um traçado às vezes aparentemente duro, com alguns buracos, necessários para me fazer pensar e seguir.

há um tempo para tudo, obrigatório, onde eu me permiti fazer tudo o que eu queria fazer, fiz coisas boas e ruins, sempre consciente, não me arrependo de nada, não culpo ninguém, eu quis e fiz.

trilhei esse caminho fugindo de todos os padrões, eu precisava, e continuo precisando escrever essa minha vida com meu desenho, minhas tintas, minhas imagens.

Nunca me preocupei em me encaixar em nenhum momento oficial ou determinado da arte, sou um artista errante à grande maioria que se diz apta a impor caminhos, andei sempre contra a corrente, enfrentei as ditaduras, e isso em todos os sentidos, das crenças, religiões, políticas, enfim tudo isso que nos enquadra em suposições e mentiras, e que nos impede de nos enxergarmos a nós mesmos, tudo isso para encontrar a mim mesmo, eu verdadeiro e livre de medos ou culpas, não tenho culpa.

hoje eu agradeço por ter me encontrado, por ter feito um trabalho consciente, por ter chegado, senão onde eu queria, mas muito próximo.

hoje eu posso dizer que sou feliz, com minha família e com o conjunto da minha obra, e querer viver muito mais para fazer um pouco mais, mas se eu for embora agora, vou tranquilo, satisfeito, certo.

rodei por muitos lugares, e quero andar muito mais, pude conviver com pessoas muito diferentes de mim, e plenas como eu, línguas diversas, muitas vezes dentro de um mesmo país muito pequeno, o que me fez perceber que são grupos certos de si, que não se rendem a um modus vivendi instituído pelas religiões e pela política, grandes mentiras necessárias ao poder, e que constituem o ponto mais negativo do país onde vivo e quero viver, mas que sei, vive de baixo de uma venda gigante que impede ver a vida, sua individualidade, sua diferença, seus diferentes caminhos, aceitando ser uma massa que passou do ponto onde seus ingredientes perdem a função de aglutinação, ser massa na vida e na arte não me satisfaz, não deve bastar a ninguém.

quero agradecer às pessoas que se voltaram para a leitura de meu trabalho.

agradecer à Rosangela por esses anos todos observando profundamente a minha obra, o meu olhar e pensar, criando pontes com outros pensadores, numa séria busca para explicar o conjunto desse meu trabalho, desse meu viver. Aguçando insistentemente o olhar de seus alunos, abrindo caminhos, rompendo limitações. Serei para sempre grato.

ao Ylmar, que com esse olhar de colecionador, debruçado sobre a arte, a literatura e a medicina, de uma forma indescritível, um gênio do pensar, do olhar, minucioso, que detém boa parte das minhas melhores obras, pelo qual eu agradeço, porque ao mesmo tempo em que me permite continuar a produzir é o guardião desse meu caminho, evitando que ele se perca em minhas mãos de louco, de artista, de vaca preta pastando em frente da minha casa, de ruminador de imagens. Conhecedor profundo da vida e da morte.

ao Fernando, pela precisão crítica e perspicácia na leitura da obra de arte, contemporâneo no verdadeiro sentido da palavra, um jovem conhecedor da alma dos artistas.

a Alberto, músico que com seu noturno viabilizou os meus fragmentos de um noturno.

à Ligia, que esclareceu com sabedoria a minha proximidade com o desenho de Matisse, minha maior referência.

ao Felipe que coordenou esse emaranhado todo dando forma ao conjunto, que com seu domínio da imagem em movimento do cinema editou essa história.

aos muitos verdadeiros amigos mundo afora, aos quais tive a sorte de encontrar, e que são meu porto seguro onde quer que eu esteja. Em especial ao vilarejo de Corme, Galícia, com todos os que fazem parte do lugar e com quem estive junto na viabilização do Museo de Arte Contemporâneo. A Bruno, em Rijeka (Croácia) e aos Andreevisk, Sloestica (Macedônia) outro segundo lar. A Maria Helena (Rio/Berlim) amiga constante em todas as horas.

Aos meus amigos de adolescência e juventude, comigo até hoje.

Em especial, a Laura e meus filhos que apesar de não entenderem muito bem essa minha loucura e aparente descompromisso, sempre juntos, me apoiando e permitindo que eu vivesse essa vida só minha, com muito amor e cumplicidade.

A Enzo e Victória, que me fazem querer viver mais 50 anos para acompanhar o crescimento e o desabrochar deles para a vida.

À Bianca minha filha, que me fez compreender e aceitar a morte.

A meus pais, que na dificuldade deles em entender a vida, me autorizaram a seguir a minha, rompendo os limites da minha cidade. Sempre sentirei falta deles.

A algumas pessoas específicas de minha família, eles sabem quem são, que se tornaram meus irmãos por escolha minha.

À vaca preta, que me fez pensar.

À ilha onde vivo, que é o meu lugar no mundo, onde minha alma nasceu, apesar de o corpo ter nascido em lugar não desejado.

Finalmente, obrigado por ainda estar vivo, independente do ano de 2013 que tentou me excluir desse grupo. Obrigado por ter esse olhar diferente, por ser diferente, e justamente por isso ter sido eu, completamente. Por ter escrito o atestado da loucura necessária, com o apoio da loucura de Erasmo de Rotterdam e a janela que me deu acesso à vaca preta.

Novamente obrigado à Rosangela pelo incansável e persistente trabalho que me possibilitou me enxergar como artista, algo que eu considerava completamente inútil.

Paulo Gaiad

Ilha de Santa Catarina, maio de 2014

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