Pelo olhar de um colecionador

Ylmar Corrêa Neto

Diferente dos outros textos desta publicação, este não foi elaborado por um produtor ou por um pensador sistematizado da arte, mas por um consumidor desarmado. Consumidor no sentido de alguém que opta por conviver com a arte no cotidiano, procurando por significados nos detalhes, procurando conexões entre obras e artistas.

Antes de formar uma pequena, mas abrangente, coleção de obras do Paulo Gaiad, procurei acompanhar a literatura sobre o artista, bem como frequentar exposições onde o mesmo era representado. Foi em 2002 no Museu de Arte de Santa Catarina, na exposição “A poética da morte na cultura brasileira” curada por João Evangelista de Andrade Filho, que encontrei “Estudo preparatório para a divina comédia” (2001), ou a Sara, como a chamamos em casa com a anuência do Paulo.

Sara motivou a primeira visita ao atelier da rua Eugênio Raulino da Silva. Pedi ao editor Cleber Teixeira da Noa-Noa, amigo do Paulo, que lá me levasse. Em uma manhã de sábado, Cleber com sua calma e simpatia, eu, e um mapa improvisado partimos em uma expedição ao Campeche, no sul da Ilha de Santa Catarina. Achamos o atelier, próximo a uma igreja em construção dedicada a São Sebastião e a Nossa Senhora do Sagrado Coração, após passar por uma torre de telefonia móvel que não existe mais. Paulo, calmo e simpático, me mostrou suas obras em pequena retrospectiva, explicando detalhadamente suas técnicas e inquietações.

Sara estava encaixotada, em ataúde próprio, não devido à exposição no MASC que não tinha estes requintes, mas a mostra “Divina comédia” no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (2002). A abertura foi difícil, os parafusos estavam apertados, mas assim que exumada decidi por tentar incluí-la em um conjunto que venho cuidando nos últimos trinta e cinco anos, focalizado na arte catarina.

Faltava convencer minha família e, principalmente, o Paulo, que gostava especialmente da Sara: uma foto anônima dos Arquivos Judiciários Franceses (“sic”) de uma colaboracionista desconhecida, qual “nuda veritas”, vestida apenas de sandálias, meias, pérolas e a corda que a enforcara, acrescida de fios metálicos, alguma ferrugem e uma caixa de ferro e vidro onde se consegue notar a mão do artista, apesar da força da imagem, dor de outrem. Paulo, embora imaginasse um lugar melhor para Sara, aceitou a separação e amizade e coleção começaram juntos, com visitas frequentes ao atelier possibilitando acompanhar seus diversos projetos.

É irônico chamar de Sara uma prostituta nazista, assim como é desconfortável a sensação de que a informação sobre a origem da imagem modifica/atenua a violência. Tanto na caixa quanto no titulo Paulo omite a informação, isolando a imagem e a reconstruindo em perspectivas diversas.

As obras mais antigas do Paulo na coleção são duas vistas alemãs, uma de Berlim chamada “Correspondências póstumas” (1995), pintada sobre uma pesada chapa de aço de 120 por 100 cm, outra intitulada “Impressões (memórias de viagem): Heidelberg” (1999), pintura, desenho e colagem sobre tela. Estas obras alemãs, frutos das lembranças das várias viagens do Paulo, introduzem outros elementos importantes de sua obra, a nostalgia, o desenho econômico do arquiteto, a mistura de materiais e a autobiografia, memória de si. Neste sentido vale salientar que a Alemanha é a terra de Kiefer que, como o francês Boltanski, é artista próximo de Paulo nos temas e nos materiais, longe na escala e na antipatia.

Sobre a estadia em um vilarejo na montanha Wilhelmsfeld e a obra de Heidelberg, Paulo escreveu: “Do alto do “caminho do filósofo” vejo o Neckar e toda a cidade. Atravesso a ponte velha e caminho pelas ruinas do castelo, deito e tomo café da manhã na grama dos parques vendo barcos e cisnes passarem. Fui enfeitiçado por esse lugar onde vivi intensamente e me transformei profundamente, sem possibilidade de volta. Algumas coisa se quebraram dentro de mim, outras se juntaram, ainda não sei o que resultou, sei que aqui eu mudei“.

Também relacionadas com a Alemanha, onde foram inicialmente expostas na coletiva “Brasilien in Barsikow” (Galerie Barsikow, Barsikow, 1998), está um grupo de obras relacionadas com cicatrizes que compõem um instigante subconjunto de obras do Paulo, dor de si. A primeira “Cicatriz” (1998) que entrou na coleção foi um pequeno pacote embrulhado com chumbo maleável contendo um paralelepípedo de papel filtro colado, marcado pela ferrugem de fios metálicos que antes o amarravam. Ali Paulo inscreveu um pequeno texto que ilumina, ou escurece, o sentido da série: “Ao se fechar a ferida a cicatriz guarda essa marca, a essência da dor. Traz em si a história da difícil caminhada que é viver. Essas marcas e feridas nos tornam mais duros, menos flexíveis, mas nos permitem continuar a andar. Ainda bem que se fecharam, senão a loucura seria certa”.

A força deste texto continua no grande pacote com nove módulos de papel filtro que quando aberto permite variações na disposição, nas duas raras cicatrizes sobre papel, no fragmento das 124 pequenas cicatrizes expostas tanto em Berlim quanto na mostra “Pele, Alma” no CCBB em São Paulo (2003), e no “Receptáculo da memória: cicatrizes” (2000), uma caixa de ferro com os componentes supostamente utilizáveis na construção de cicatrizes de outros. Um ensaio fotográfico sobre as cicatrizes foi realizado por Heloisa Espada e utilizado pelo Paulo em um livro de artista.

Quatro receptáculos da memória foram completados entre 2000 e 2001. Além do “cicatrizes”, “Receptáculo da memória: a morte e meu pai” (2001), serviu de ilustração para o cartaz do simpósio “Olhares sobre Paulo Gaiad” na reitoria na UDESC em 2013 que originou esta publicação, e outro, contendo brinquedos de infância, foi adquirido pelo critico Tadeu Chiarelli.

A quarta obra desta série, também incluída na coleção, é intitulada “Receptáculo da memória: dor” (2000), que combina pregos, alfinetes e palitos enferrujados que garantem diversas sensações álgicas, sejam físicas ou da alma. Aqui sobressai outro elemento da obra do Paulo, a dor, o sofrimento.

Em 2002 os receptáculos da memória evoluíram para um projeto coletivo, onde Paulo solicitou a alguns amigos que lhe enviassem objetos de que lhe fossem caros, memórias de outrem, em troca de fragmentos de uma carta de sua mãe, memória de si, montada em ferro e repartida em trinta pedaços de 10 por 10 cm. A série foi exposta no Santander Cultural de Porto Alegre na mostra “Apropriações/Coleções” (2002). Deste projeto a coleção possui uma “Carta 1981 receptáculo da memória de Paulo Gaiad” (número 10 de 30); o “Receptáculo da memória de Branca Tomie”, uma colher em que a critica de arte costumava tomar xaropes na infância e Paulo enclausurou em caixa de ferro e vidro junto com um líquido pegajoso, espesso e rosado; e o “Receptáculo da memória de Guto Lacaz”.

Guto Lacaz não enviou apenas o chapéu de seu pai, o Prof. Lacaz, mas também o cartão fúnebre da sua recente perda e uma carta em envelope azul piscina onde escreveu: “Querido Paulo, obrigado pelo convite, aqui vai um dos chapéus (o mais bonito) que meu pai usava. … Sucesso”. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002), pai do Guto, foi médico, professor catedrático de microbiologia e imunologia da Universidade de São Paulo, fundador do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo e autor de cerca de 500 trabalhos científicos, 50 livros e 1500 artigos de divulgação para a Folha, também de São Paulo. Paulo também enclausurou o chapéu, dentro de sua caixa de cartão, em ferro e vidro.

Com o chapéu do Carlos-Guto-Paulo, parafraseando Schopenhauer, “tornase claro e certo que não se conhece chapéu, sol e terra alguma, mas sempre apenas um olho que vê um chapéu, um sol, uma mão que toca uma terra”. Quem conhece o Prof. Lacaz vê o chapéu do professor e cientista, quem conhece o artista Lacaz aprecia o design e a função/disfunção do chapéu, quem ambos conhece vê a simbiose. Quem desconhece o pai, o filho e o espirito do Paulo vê ferro, vidro, cartão e feltro. “Isto é um chapéu” e a obra continua funcionando muito bem.

“As paredes que me cercam (noturno)” é uma grande tela de 160 por 140 cm, de uma série de cinco produzidas em 2003, teto e quatro paredes, memória do Campeche. Fotografia da lua e fotografias das nuvens do sul da Ilha realizadas pelo artista e trabalhadas em seu estúdio Ninho do Lagarto. Noite azul Giotto sombria e misteriosa, entrou na coleção pouco antes de participar da retrospectiva do Paulo, “Sobre papel”, que preencheu o MASC em 2007, cuidada por João Evangelista de Andrade Filho.

O uso de fotografias, próprias ou de outrem, é outro elemento frequente na obra de Paulo. “O atestado da loucura necessária II” (2005), selecionado para o Salão Victor Meirelles, é um exemplo de como Paulo consegue transmutar o significado das imagens. Uma pequena fotografia ampliada para 140 por 140 cm de uma criança de colo, com toca, bico caído e sorriso tem seu significado pervertido por uma tênue inscrição na borda esquerda do quadro, qual palimpsesto: “De fato nem todas as demências são funestas. Sem isso Horácio não teria dito: Não estou exposto a amável loucura?”. A citação do Elogio da loucura de Erasmo de Roterdã é descontextualizada e a combinação imagem-palavra gera novo sentido, modificando a percepção da alegria, antes inocente, agora irônica, daquele pequeno burguês uruguaio. Adquirido por Paulo em um mercado de pulgas em Curitiba, um álbum de fotografias do inicio do século XX de uma família uruguaia servirá para várias obras, memórias de outrem. Sara e a criança representaram o Paulo na mostra “Fotografia(s) Contemporânea Brasileira: Imagens, Vestígios e Ruídos” no MASC (2013/14).

O jogo imagem-palavra continua em “Música ao entardecer” (2008), da série “Luz e sombra”, produzido junto com duas outras obras de dimensões semelhantes para uma exposição em Curitiba que acabou não ocorrendo. A luz e a música são representados pela colagem da embalagem de lâmpadas “National Mazda” e pelo miolo de um disco francês de 78 rotações contendo a canção “Eccoutez moi”. A música permite à obra uma quarta dimensão.

A série “Fragmentos de um noturno” (2008) é outra obra musical, baseada na composição para piano de Alberto Heller. Na peça presente na coleção a combinação partitura de Heller-imagem, utiliza a ampliação da embalagem de lâmpadas “National Mazda”, montada em pesada chapa de ferro. Aqui as conexões internas na obra do Paulo abundam em coda.

Por fim incluímos na coleção duas obras das viagens à Europa dos anos de 2006-10, incluindo Eslovênia, França, Espanha e Macedônia. A obra galega, “Cruz de Corme” (2010), fotografia e tinta colada sobre placa de aço inoxidável, representa as cruzes de pedra, sepulturas sem corpos, memórias de outrem, em homenagem aos mergulhadores mortos pelas ondas pelos “Pollicipes pollicipes” na Costa da Morte, onde Paulo realizou residência artística no Museu de Arte Contemporânea.

Assim, através da descrição das obras mais significativas da coleção, esperamos ter elaborado uma introdução aos temas e materiais do Paulo. Este conjunto foi formado na última dúzia de anos com as dificuldades habituais de uma coleção de arte particular com recursos modestos, onde disponibilidade da obra e oportunidade de aquisição nem sempre coincidem. Todas foram adquiridas diretamente do Paulo, uma vez que o mesmo não tem no pequeno mercado local de arte uma representação estável. Paulo é artista respeitado pela critica e pelo público, mas ainda incomum nas coleções locais (o MASC possui uma grande cicatriz). Artista que como Asp, Ostroem e Lindote, escolheram a Ilha de Santa Catarina para morar e sofrem pela opção de não fazer uma arte pseudo-açoriana, uma arte alegre, colorida e serial, uma arte turística e culturalmente reducionista, estranha à Florianópolis contemporânea e cosmopolita. Paulo é artista que enfrenta o nosso tempo e que muito nos faz sentir.

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