Restos e rastros

Lucila Vilela

Paulo Gaiad elaborou boa parte de sua produção participando de residências artísticas em várias cidades do mundo. O artista esteve na França, Espanha, Alemanha, Holanda, Croácia e Macedônia realizando diversas obras decorrentes das impressões de viagem. “No amontoado e na balbúrdia da experiência vivida, o vestígio cartografa e permite o levantamento de uma geografia sentimental”, nos diz Onfray.[1] Gaiad saiu da ilha de Florianópolis, cruzou o oceano e captou nuances que aparecem entre as camadas de tinta compostas com recortes de papel, fotografias, escritos e desenhos.

As Residências Artísticas se intensificaram a partir da década de 1990, mas já era costume das academias de arte, no período da Renascença, oferecerem prêmios de viagens aos artistas que mais se destacassem. Esse privilégio de deslocamento geográfico, além do aprimoramento técnico, proporcionava novas experiências e trocas culturais enriquecendo o repertório artístico. “As primeiras viagens de artistas para estudos realizaram-se com o estímulo e apoio dos príncipes”[2]. As viagens assim se sucederam como prática habitual dos artistas. “Até um período bem avançado do século XVIII, os artistas que podiam empreender viagens de estudo com apoio financeiro da corte formavam o principal contingente dos artistas que viajavam para o exterior. Tão logo retornavam a seu país ou à corte, eles em geral também recebiam um posto permanente.”[3] Mas foi em Gauguin talvez que encontramos o exemplo mais radical. O artista já com autonomia, escolheu o Taiti como destino no início do século XX. Retratando a vida e as pessoas locais, Gauguin escreveu também o livro Noa Noa, em que relata suas impressões sobre a ilha. Muitas pinturas, desenhos, escritos e obras de todos os tipos foram produzidos ao longo dos anos em ocasiões de viagem ou mudança.

Hoje são diversos os países que oferecem programas de residências a fim de proporcionar o intercâmbio cultural conseguindo ampla difusão através da internet. Para Marcos Moraes, “a necessidade de buscar formas de experimentar – e vivenciar – o mundo pode explicar esse interesse e necessidade de artistas contemporâneos procurarem as residências, em um mundo marcado pela mobilidade, pela globalização e pela formação do local como forma de afirmação a essa, agora, permanente transitoriedade.”[4] Durante a residência, segundo o autor, o artista rompe com o espaço-tempo habitual e obtém um espaço-tempo específico para o desenvolvimento de sua atividade. Isso contribui para repensar onde e como a arte é produzida, entendendo também a residência como espaço de formação e inserção no circuito artístico.

Os resultados são diversos, a relação com o desconhecido e o distanciamento do cotidiano determinam transformações que influenciam na produção do artista. Onfray observa que uma vez absorvidas as miríades sensuais, o viajante deve “ordenar, traçar nesse bloco de emoções linhas de força, linhas de fuga, abrir uma passagem às energias, produzir sentido, organizar, construir.”[5] No entanto, as imagens e obras produzidas pelo artista em viagem ultrapassam a ideia de registro, vão além da cristalização da memória.

A residência une a arte com a experiência de viagem e culmina, muitas vezes, em produções inusitadas e criativas. Na proliferação de emoções difusas liberadas pelo distanciamento da zona de conforto, o artista se serve do amplo leque de meios técnicos, proporcionado pela liberdade de suportes na arte contemporânea. Seja na velocidade da máquina fotográfica, na calma de uma aquarela ou na lentidão de uma escrita poética, cada suporte evoca um tempo singular[6]. A escolha técnica reflete na qualidade temporal do trabalho, numa percepção muitas vezes alterada pelo deslocamento. “A aventura do movimento enquanto tal, eis o que provoca entusiasmo; o escorregar de um lado para outro dos espaços e tempos normais em direção ao que não foi ainda mesurado excita paixão”, percebe claramente Siegfried Kracauer[7]. Assim, a experiência da residência artística une sensibilidade ao deslocamento geográfico expandindo fronteiras e enriquecendo o repertório do artista através do contato com outras culturas.

Gaiad, em muitos momentos, aproveitou esse deslocamento para sair em busca de suas referências, tentando se aproximar do espírito de seus mestres, sentindo a luz de Delft, as cores de Matisse ou a névoa de Turner. Em visita à casa de Matisse, o artista deixa sua impressão:

O azul, o intenso azul que me envolve e me transforma, contrasta o cinza, o laranja e o branco da pintura limpa das construções. Aqui estive com Matisse, sua casa, o requinte de cada objeto, de cada espaço, sua pintura, meu mestre magistral, com quem aprendi a ver as cores. Aqui quis ter estado antes, aqui quis ficar.

(Paulo Gaiad)

Em Delft, a referência não podia ser mais direta. Buscando o rastro de Johannes Vermeer, Gaiad percebe a tonalidade que incide sobre os quadros do pintor holandês, a atmosfera luminosa que rege seu olhar. Em seus estudos de luz e sombra, realizados no ano de 2007, encontram-se as obras “Céu de Delft I”e “Céu de Delft II”, feitas com fotografia, pintura e colagem sobre tela. Nelas a pincelada de Gaiad invade a paisagem da fotografia, alcançando grande parte da superfície, mas deixando o respiro das nuvens. O espírito que invade o céu de Delft surge de um diálogo em que o artista tenta se aproximar ao gesto de seu mestre, o olhar contemporâneo recai sob o céu que um dia encobriu o século XVII, e com isso Gaiad insere sua marca, o que resulta em uma outra composição.

      
Paulo Gaiad: Céu de Delft I , 2009

Paulo Gaiad: Céu de Delft II, 2009

Nas Series Soltas de Paisagens, de 2009, encontram-se também o Projeto Turner e o Projeto Pintar um Futuro: Rembrandt. São obras feitas em técnica mista que aludem a grandes nomes da História da Arte, as paisagens criadas pelo artista remetem à atmosfera que envolve as pinturas, tanto de Turner como de Rembrandt. Também nesta época, foram realizadas as obras durante a residência artística em Rully, na França. Com anotações inscritas sobre a pintura acrílica, as colagens exibem cores fortes e trazem a atmosfera do destino francês. Os registros de viagens que logo irão compor grande parte de suas obras fazem parte dessa memória carregada de impressões e referências que o lugar estimula. Em uma de suas primeiras viagens, na Alemanha, Gaiad escreve sobre seus receios:

Manhã de domingo na região de Brandenburgo, névoa fria, música se instala no ar. O orvalho molha meu sapato enquanto eu caminho pensando como vai ser esse dia. As pessoas que vão chegar (serei compreendido?), como eu vou estar! As senhoras do vilarejo montam suas mesas com café, tortas e bolos. A expectativa é grande. Como será? Continuo a andar pela grama enquanto o orvalho molha o meu sapato.

(Paulo Gaiad)

Passeando vagamente no lugar estrangeiro, cada vez mais longe de seu domicilio, Paulo Gaiad experimenta as diversas sensações que a nova paisagem oferece. As residências constituíram um lugar de cruzamentos e o fluxo de memórias foi transformado em restos de fotografias, ávidas pinceladas e confidências que compõem uma tela em branco. A volta busca com efeito organizar os vestígios e deixar que os rastros habitem a materialização das obras. A viagem em residência artística se instaura como possibilidade alternativa de investigação do artista. No retorno à casa, o descanso e o prumo do relógio estruturam o corpo, e as lembranças sustentam a possível certeza de embarcar no próximo destino.

 
Paulo Gaiad: Projeto Turner, 2009

Paulo Gaiad: Projeto para futuro: Rembrandt, 2009

 Apesar da forte presença da fotografia em seus trabalhos, ela não é o principal componente. Suas fotografias fazem parte de um universo híbrido e são trabalhadas com perfurações, arranhões, recortes e esfolamentos. Tadeu Chiarelli nota que “Gaiad não parece interessado na linguagem fotográfica ou na fotografia ‘pura’. Pelo contrário. Exerce aquelas várias ações sobre a placa revestida com a imagem fotográfica (riscando-a, perfurando-a etc.) por supostamente não confiar na força efetiva daquelas imagens.” [8] Longe de um olhar banalizado pelo êxtase turístico, o artista fotografa ou se apropria de fotografias com a sensibilidade de um olhar atento, enxergando o desdobramento daquela imagem na composição de uma obra maior.

A atividade de filmar ou fotografar fascina pelo seu efeito mágico: com a facilidade das câmeras atuais, em apenas um click a paisagem que está diante de seus olhos como que se materializa. E ainda, você pode mostrar para os outros aquilo que foi vivido. Mera ilusão! A natureza que aparece na câmera não é a mesma que percebe o olhar. A experiência de viagem abarca todos os sentidos, impregna na pele, nos ossos, músculos, órgãos e articulações, Rimbaud alerta que viajar supõe o “desregramento de todos os sentidos.”[9] De fato, a experiência de viagem resulta em uma percepção individual e intransferível, o que causa desconforto na impossibilidade de compartilhamento. Freud observa que uma experiência só pode ser completa quando se retorna ao lugar com a pessoa amada. Talvez por isso seja tão forte a necessidade de compartilhar, e a fotografia traz então esse conforto ilusório: você não foi, mas eu te mostro.

Mas há algo que escapa, que não se pega, que foge às mãos, fugaz imagem mariposa[10], e não se repete mais, mesmo que exista um retorno: “sempre a primavera, mas nunca as mesmas flores”[11]. E isso que traz angústia, a incessante ação do tempo, consciência do inevitável fim. No entanto, a fotografia vem com sua mágica para congelar o tempo, sanando qualquer desconforto e, até que a Invenção de Morel se torne realidade,[12] é na imagem que temos a ilusória materialização da memória. Assim, para olhar através da lente, deve-se ter um pensamento de imagem. Aqueles que têm a ansiedade turística escondida atrás das lentes ficam impossibilitados de viver a experiência real e frustrados com o resultado final da imagem, tornando-se aflitos e vazios. Os que percebem essa diferença têm outra relação com a fotografia (ou vídeo) em ocasião de viagem, fugindo lucidamente da histeria do disparo automático.

 Turistas Fotografando

 Há sempre uma imagem, um escrito, um cartão, uma fotografia ou um objeto para fixar as lembranças de uma viagem, na tentativa de capturar o que o corpo viveu. Registrar aquilo que fez sentido para compartilhar a vivência com o outro. Os diferentes suportes aspiram cristalizar as sensações, mas essa tentativa é sempre em vão. O excessivo uso da fotografia e do vídeo digital, aparato obrigatório do turismo contemporâneo, anula a experiência in loco em prol de uma ansiedade de congelar o tempo e transmitir a experiência. O resultado final é uma proliferação de imagens que não dão conta de expressar o que foi vivido. Michel Onfray observa que não há “nada pior do que um dilúvio de vestígios, uma abundância de fotografias – como a histeria contemporânea e turística que consiste em registrar tudo com seus aparelhos digitais e se arrisca a reduzir sua presença no mundo à mera atividade de filmar”[13] De uma viagem, deve restar pouco.

O pensamento que envolve o olhar fotográfico atento pode ser extremamente refinado levando em conta nuances de luz, tema e composição. Isso se deve à consciência da fotografia como produção de imagem. Muitos artistas também optam por registrar as impressões de viagem em outros suportes; anotações, desenhos, pinturas, tudo faz parte quando se tem escuta para a percepção física e mental que um deslocamento supõe. A experiência de viagem que uma residência artística proporciona vai além da superficialidade do turismo standard resultando em produções impregnadas de experiências artísticas e culturais. Paulo Gaiad, desta maneira, soube aproveitar essa prática trazendo ao seu trabalho a sutileza de uma luz amena e impressões de remotas paisagens.



[1] Onfray, Michel. Teoria da viagem. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 52.

[2] Warnke, Martin. O artista da Corte. São Paulo: Usp, 2001, p.159.

[3] Idem, p.160

[4] Moraes, Marcos José Santos. Residência artística: ambientes de formação, criação e difusão (tese). São Paulo: Usp, 2009, p. 19.

[5] Onfray, op. cit., p. 51.

[6] Cf. Onfray, op. cit., p. 52.

[7] Kracauer, Sigfried. O ornamento da massa. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 84.

[8] Chiarelli, Tadeu. In: Ribenboim, Ricardo et al. Paulo Gaiad (catálogo de exposição). Florianópolis: Corset, 2004, p. 12.

[9] Rimbaud, apud Onfray, op. cit., p.30.

[10] Cf. Didi-Huberman, Georges. La imagen Mariposa. Barcelona: Mudito & Co, 2007.

[11] Cf. Wilhelm, Richard (org.). I Ching: o livro das mutações. São Paulo: Pensamento, 1996.

[12] Casares, Adolfo Bioy. La invención de Morel. Bogotá: Norma, 1993.

[13] Onfray, op. cit., p. 52.

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