Trocas

Yáskara Beiler Dalla Rosa

Afetos são pessoas que me emprestam a alma quando a minha se sente fraca.

(Paulo Gaiad)

Em um primeiro momento, Paulo Gaiad passa a impressão de ser uma pessoa tímida que gosta de estar sozinha. A fala que o artista tem acerca de seu solitário processo artístico no atelier, onde não permite a entrada de ninguém, reforça mais ainda essa imagem. No entanto, quando a obra de Gaiad vai se tornando mais familiar e quando se escuta os relatos do artista, tem-se certeza de que aquela primeira impressão estava equivocada.

Os trabalhos de Paulo Gaiad, e aqui falo principalmente de três séries, Auto-retratos; Receptáculos da memória; e Cadernos de memórias, envolvem pessoas, amigos, família. Há uma necessidade pulsante na vida de Gaiad de trocar, de compartilhar sentimentos e memórias. O artista fala que busca “tentar identificar o que o outro tem de mim”. As memórias são talvez o ponto central de toda sua obra e de sua história.

Muitas vezes pode-se ficar em dúvida também em relação à técnica utilizada por esse artista. É uma pintura? Um desenho? Uma colagem? Na verdade, é tudo junto. Pode-se pensar no trabalho de Gaiad relacionando-o a Matisse com seus “arquidesenhos” ou a meninice de Picasso, como disse João Evangelista de Andrade Filho. É um trabalho muito conceitual. O artista relata em entrevista ao jornal Diário Catarinense: “Meu trabalho não é padrão, de pintura ou decoração. É o que a arte contemporânea é hoje: conceito”.[1]

A fim de refletir um pouco mais da obra deste artista serão analisadas aqui duas obras de cada uma das séries citadas anteriormente. Nessas escolhas sinto-me fazendo parte da obra também, afinal, é com o olhar do público que a obra é finalmente concluída. Todas as obras aqui comentadas fazem parte das Trocas de Paulo Gaiad. São todas obras que de alguma forma receberam uma participação de outra pessoa. E de alguma forma também toda esta participação estava envolvida com a memória. Memórias das pessoas escolhidas por Gaiad, memórias do próprio artista e memória de quem olha a obra.

Autorretratos

Na série Auto-retratos, Paulo Gaiad escolheu um grupo de amigos e solicitou que cada um fizesse um autorretrato. Este autorretrato não tinha a obrigatoriedade de ser textual. A partir desse material recebido, Gaiad iria compor um novo trabalho, de sua autoria, mas que, no entanto, estaria impregnado da essência, do eu das duas pessoas, tanto do artista como da pessoa que enviou o autorretrato.

 

Figura 1:Paulo Gaiad – Bolo de Cenouras, Autorretrato de Nara Milioli, 2001. (Dez peças de 10x10cm).

Figura 2:Paulo Gaiad – Detalhe I do Autorretrato de Nara Milioli, Bolo de cenouras.

Figura 3: Paulo Gaiad – Detalhe II do Autorretrato de Nara Milioli, Bolo de cenouras.

Os suportes para estes autorretratos foram os mesmos, chapas de aço de 20×20 ou de 10×10 centímetros. O aço é uma constante nas obras de Paulo Gaiad.

Nesta obra, a amiga de Gaiad Nara Milioli envia-lhe uma receita de bolo de cenouras. O artista descreve a receita com desenhos, com pintura, com a escrita dos ingredientes.

Refletindo sobre as trocas presentes na obra de Gaiad pode-se pensar na troca simbólica em Jean Baudrillard. O autor diz: “a troca simbólica é o lugar estratégico em que todas as modalidades de valor confluem para uma zona que eu chamaria de cega, em que tudo é reposto em questão”.[2] Nessa troca simbólica, morte e vida são reversíveis e permutáveis entre si. Gaiad apropria-se desse entendimento em Auto-retratos, ao criar uma reversibilidade na autoria da obra por conta da permutabilidade, já que cada um dos retratados contribui com seu autorretrato. Dessa forma, o artista torna permutáveis elementos que no sistema convencional de valores são lineares e não reversíveis. Assim, cria-se uma espécie de simulação de reconstituição de memória a partir dos fragmentos deixados pelo autor.

Figura 4: Paulo Gaiad – A vida como eu gosto, Autorretrato de André Gaiad, 2001. (Seis peças de 20×20 cm).

A segunda obra da série de autorretratos diz respeito a desenhos do filho de Paulo Gaiad. Dias felizes e ensolarados que o artista trabalha explorando a transparência e o texto. O texto é também um elemento chave em suas obras.

A obra de arte consiste em dar palavra àquilo que só fala nas obras. Aprofundando-se o mundo natural, delineia-se algo que está mais além, é a percepção. As obras de Paulo Gaiad mostram isso mais facilmente, até porque são acompanhadas de textos. Seriam suas paisagens mapas de uma circunavegação insólita, onde estranha caligrafia aprofunda a incógnita, como disse Harry Laus? Para Gaiad, são plenas de sentido. São suas paisagens e são seus os textos, bem como sua caligrafia.[3]

Makowiecky ainda revela que é possível ver nas obras do artista, “especialmente nos Auto-Retratos, uma personalidade dinâmica e performativa, uma obra de cunho tremendamente intimista”.[4] Principalmente na figura 2, pode-se ver a busca da identidade do outro no próprio artista. Na verdade, o que vemos de “Autorretratos” na série não é apenas o autorretrato do amigo escolhido, mas o autorretrato do próprio Gaiad.

Como estrutura do jogo descrito por Roger Caillois, Paulo Gaiad assume o autorretrato do outro e ressignifica a obra, numa mimetização em que o outro passa a ser ele próprio transmutado em um terceiro personagem, em um acordo ficcional aberto entre o artista, seus personagens e o observador:

MIMICRY – Todo jogo pressupõe a aceitação temporária, senão de uma ilusão (embora esta última palavra não signifique mais do que uma entrada de jogo: “in-lusio”), pelo menos de um universo fechado, convencional e, sob certos aspectos, fictício. O jogo pode consistir não em exibir uma atividade ou em sofrer um destino num meio imaginário, mas em transformar a pessoa numa personagem ilusória que se comportará como tal. Encontramo-nos então diante de uma série variada de manifestações que têm um caráter comum: repousa no fato do indivíduo fingir que acredita, ou que fez acreditar aos outros que ele é outra pessoa: esquece, disfarça, despoja passageiramente a sua personalidade para assumir outra.[5]

Receptáculos da memória

Em Receptáculos da memória, Paulo Gaiad solicita aos amigos um objeto significativo na vida de cada um. Envia uma mensagem, via internet, para um grupo de amigos, não se sabe quantos, nem quantos responderam ou não. Nessa mensagem, Gaiad faz uma convocatória:

Estou compondo um receptáculo das minhas memórias, que consiste em 30 chapas de aço no formato de 10×10 cm cada uma, impregnados com cartas enviadas por minha mãe (já falecida)… responderei a 30 dessas pessoas enviando a cada uma delas uma das 30 peças que compõem o meu receptáculo. Com essa ação estarei repartindo a minha memória com essas pessoas que serão proprietárias de parte do conjunto…[6]

Em março de 2013, Paulo Gaiad foi acometido por um problema neurológico, e a memória que tanto faz parte de sua obra deu uma trégua a ele. Retornando desta pausa de memória, em entrevista ao Diário Catarinense Gaiad falou: “Eu vivo um momento e depois que deixo de vivê-lo, penso sobre ele. Meu trabalho não é comercial. É uma produção constante em cima desse meu pensar”. São fragmentos, lembranças vividas por ele e por quem faz parte de sua vida.

 

Figura 5: Paulo Gaiad. “Receptáculo da memória de Guto Lacaz”, 2002. Objetos variados colocados em caixas de madeira. Coleção de Ylmar Correa.

Em Receptáculos da memória, o artista trabalha com caixas de aço, madeira e vitrines, e os objetos enviados para Gaiad são carregados de simbolismo. O objeto da figura 3 pertenceu ao pai de Guto Lacaz, que dividiu essa memória com o artista.

Baudrillard diz que

Podemos também entender essa troca simbólica em nível mais amplo, o das formas. Assim, a forma animal, a forma humana e a forma divina se intercambiam segundo uma regra de metamorfoses, em que cada um deixa de ficar circunscrito à sua definição, o humano opondo-se ao inumano etc. Há uma circulação simbólica das coisas, em que nenhuma tem uma individualidade separada, em que todas atuam em uma espécie de cumplicidade universal de formas inseparáveis.[7]

Trocas simbólicas e memórias compartilhadas são essenciais na obra de Gaiad. E com isso, Gaiad percorre o mundo, seja recebendo memórias de outros lugares ou levando suas obras e memórias para outros lugares.

 

Figura 6: Paulo Gaiad. “Receptáculo da memória de Nubia”, 2002. Objetos variados colocados em caixas de madeira.

São objetos tão pessoais, às vezes segredos guardados por tanto tempo, como os escritos de Nubia, e Paulo Gaiad consegue fazer com que essas pessoas, seus amigos, os dividam e compartilhem. Isso nos remete à semelhança extrassensível, assim descrita por Benjamin: “É, portanto, a semelhança extrassensível que estabelece a ligação não somente entre o falado e o intencionado, mas também entre o escrito e o intencionado, e entre o falado e o escrito. E o faz de modo sempre novo, originário, irredutível”.[8]

Cadernos de memórias

Em Cadernos de memórias, Paulo Gaiad utiliza o papelão como suporte. São misturas de desenhos, pinturas e colagens feitas em um tamanho de 120 x 50 centímetros. Talvez seja a série de trocas onde a troca não está tão evidente, já que nada foi formalmente pedido a ninguém. Mas aqui as trocas acontecem com memórias de lugares e de pessoas que estavam nesses lugares.

 

Figura 7: Paulo Gaiad. Preciosos cristais vindos do céu, 2011.

Pintura e colagem sobre papelão. 120 x 50 cm.

Figura 8: Paulo Gaiad. Detalhe de “Preciosos cristais vindos do céu”, 2011. Pintura e colagem sobre papelão. 120 x 50 cm.

Em conversa com o artista sobre esta série de obras, Gaiad indagava as pessoas qual obra mais tinha gostado e por quê. A escolha desta obra com a transparência dos lençóis remetia as pessoas geralmente a uma lembrança de infância, como no caso desta autora, aos lençóis pendurados e a correria quando a mãe dizia “recolhe os lençóis que vem trovoada”.

Sandra Makowiecky propõe que:

A memória, física e psíquica, garantia maior de nossa condição humana, torna-se também uma das principais molduras da criação artística contemporânea e da obra de Paulo Gaiad, […]. A atitude de vasculhar as memórias pessoais e olhar para dentro torna-se um movimento de resistência contra a apatia e a amnésia geradas por um avassalador panorama externo de excessos. A evocação da memória pessoal, em Gaiad, passa a ser bandeira de resistência, demarcações de individualidade, impressões digitais que se contrapõem teimosamente em um mundo que tende a gradualmente anular noções de privacidade.[9]

A obra em si evoca sentimentos e lembranças, memórias mesmo que temporariamente esquecidas.

Figura 9: Paulo Gaiad. “Uma senhora de cabelos brancos tecendo enfeites”,

2011. Pintura, fotografia e colagem sobre papelão. 120 x 50 cm.

 

Figura 10: Paulo Gaiad. Detalhe de “Uma senhora de

cabelos brancos tecendo enfeites”, 2011. Pintura,

fotografia e colagem sobre papelão. 120 x 50 cm.

A segunda obra desta série remete quase todas as pessoas à imagem de uma vovozinha, muito provavelmente uma avó que viveu na ilha de Santa Catarina. A face feliz dessa avó faz-nos rememorar todos os colos de vó, as brincadeiras e histórias de uma época de infância. Renato Tapado revela que o

comedimento formal [na obra de Paulo Gaiad] revela uma relação altamente poética e sensível do sujeito com o mundo, que não é um mundo qualquer: na pintura de Paulo Gaiad, a forte presença da natureza, do espaço doméstico e da infância tece um ambiente imaginário que é, ao mesmo tempo, biográfico. Aliás, é nessa biografia pictórica que Gaiad se move: a destreza e o rigor do arquiteto, a sensibilidade e a introspecção, a vivência perto do mar e dos pássaros se mesclam para compor partituras subjetivas.[10]

Gaiad mais uma vez faz trocarmos memórias e subjetividades. O que poderia ser uma memória única do artista é rapidamente absorvida, envolvida e compartilhada com o público. Os amigos, o público, a família, todos fazem parte de suas memórias e todos trocam memórias.

Em resumo, a obra de Paulo Gaiad, como já dito, tem um ponto central que é a memória. Essa memória que remete ao pensamento é trabalhada de formas diferentes, mas buscando sempre o que o outro tem do próprio artista. Entendendo aqui o outro como pessoas, lugares, bichos, paisagens. As três séries de obras aqui discutidas, além da memória, envolvem as trocas, trocas de objetos, trocas de textos, trocas de lugares, sempre embriagadas de sentimentos e de recordações. Os materiais escolhidos por Gaiad são sempre pensados, nada é por acaso. O artista guarda em si um repertório de lugares, de imagens que em algum momento serão trazidos para suas obras. Finca raízes na ilha de Santa Catarina e as explora, com todas as suas ramificações, ao máximo. Talvez não sejam essas raízes tão evidentes em seu trabalho, mas como disse Sandra Makowieky, Gaiad também faz autorretratos que não são dele. Como intitular uma série de Auto-retratos, se estes autorretratos são de outras pessoas? Mas a partir do momento em que essas pessoas emprestam um pouco delas para Gaiad e ele transforma o que lhe foi dado, esse novo autorretrato passa a ser também do artista.

Nas obras partilhadas de Paulo Gaiad – a obra como vingança? Contra o quê? – algo de antropofágico se faz presente: há uma incorporação do outro, introduz-se uma heteronomia radical. Trabalhar com a memória implica necessariamente no questionamento de toda e qualquer identidade. Não se pode definir o sujeito pela identidade, já que a identidade encerra o evento da identificação do sujeito. O sujeito idêntico é certamente livre com relação ao passado e ao futuro, mas permanece tributário de si mesmo. Ser eu comporta um acorrentamento a si mesmo, uma impossibilidade de desfazer-se desse si mesmo.[11]

Pode-se pensar então em um desacorrentamento que é dado, seja pela exposição das obras seja pela mistura de identidades, que como em um movimento circular forma novamente uma única identidade. Uma mistura, uma troca de memórias para formar um único de novo.



[1] Depois de grave problema de saúde, premiado artista Paulo Gaiad retoma sua produção. Diário Catarinense, caderno Variedades. Florianópolis, 4 de dezembro de 2013. Disponível em http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/variedades/noticia/2013/12/depois-de-grave-problema-de-saude-premiado-artista-paulo-gaiad-retoma-sua-producao-4352971.html. Acessado em 1 de fevereiro de 2014.

[2] Baudrillard, Jean. Senhas. Rio de Janeiro: Difel, 2001, p. 17.

[3] Makowieky, Sandra. Paulo Gaiad – Artista – Viajante. Anais do 18º Encontro da Anpap (Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas) – Transversalidades nas Artes Visuais (de 21 a 26 de setembro de 2009, em Salvador), p. 2.727. Disponível em http://www.anpap.org.br/anais/2009/pdf/chtca/sandra_makowiecky.pdf. Acessado em 1 de fevereiro de 2014.

[4] Idem, p. 2.729.

[5] Caillois, Roger. Estrutura e classificação dos jogos. Anhembi, v. 31. São Paulo, junho de 1953, p. 453.

[6] Gaiad apud Chnaiderman, Miriam. Receptáculos: úteros geradores de cristais do tempo. In: Paulo Gaiad. Catálogo de obras. São Paulo: Corset, 2004, p.25.

[7] Baudrillard, op. cit., p. 19-20.

[8] Benjamin, Walter. Magia e técnica. Arte e política. Obras escolhidas, vol. 1. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 111.

[9] Makowiecky, op. cit., p.2.729.

[10] Tapado, Renato. Paulo Gaiad. Florianópolis, setembro de 1992. Disponível em http://renatotapado.com/artigos/paulo-gaiad/. Acessado em 3 de fevereiro de 2014.

[11] Chnaiderman, op. cit., p. 27.

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