Um olhar sobre a fatura de um arquidesenhista

Por Ligia Czesnat[1]

Estudando o texto escrito por Matisse, “A pintura como modelo”[2], foi possível perceber as semelhanças e afinidades entre o autor e Paulo Gaiad. O próprio artista comentou repetidas vezes sua predileção, afeição pelo artista francês, assim como sua dedicação em estudá-lo detidamente.

E a partir deste pretexto, encontrei uma oportunidade de estudar Matisse cuidadosamente, tendo como objeto o manuscrito escrito por ele, e assim apontar as afinidades entre os dois artistas. Então, a propósito de analisar Matisse, o entendimento da obra de Paulo Gaiad se revela. Esclareço, todavia, que apesar de o manuscrito original em francês encontrar-se extraviado, sabe-se que o mesmo reflete sobre as dificuldades e avanços do projeto radical de pintura de Matisse.

Quando, em 1936 o artigo foi publicado na revista londrina The Studio, Matisse afirmou que uma das mais importantes conquistas da pintura moderna foi ter descoberto o segredo da expressão por meio da cor, quando acrescentou a expressão por meio do design, contornos, linhas e suas direções. Porém, grande parte do problema residia no termo expressão por meio de design, dado que em francês não existe tradução para o conceito design. A utilização desse conceito permitiu uma nova gramática plástica, cuja compreensão de escala não conta e se apoia no processo projetivo. Quando Matisse menciona as palavras contornos, linhas e suas direções, ele se refere em outras palavras ao desenho. Assim, a expressão por meio do desenho merece ser examinada à luz da expressão por meio da cor, representando uma ruptura na história da pintura, isto é, inaugura um novo campo conceitual na pintura.

Matisse buscava novos métodos para a pintura, pois considerava que os velhos métodos não eram apropriados para representar os novos sentimentos. Entendendo que a palavra tradição era antagônica às novas aspirações, referia-se à tradição boa e à ruim. Considerando que não se pode simplesmente descartar a tradição, mas que parte dela estava morta. Reconheceu como boa tradição, a pintura de alguns artistas vindos do leste (Moscou) e que a mesma significava ter consciência de sua própria situação histórica e transformá-la. Deste modo dedicou-se ao estudo do pós-impressionismo. No texto Matisse relata obstinadamente os avanços e retrocessos de sua pesquisa, atribuindo ao pontilhismo o segredo da descoberta da expressão por intermédio da cor, ressaltando o fato de que os expressionistas haviam limpado o caminho por meio do recurso de liberar a cor se sua função mimética, portanto a cor ganha autonomia.

Matisse, num primeiro momento, passou por diversidades estilísticas, com ênfase nas cores secundárias, representadas pelo laranja, azul, púrpura e verde, sem justaposições. Na segunda fase, foi a Sain-Tropez, a convite de Signac, e lá fez uma retrospectiva artística na Galeria de Vollard, descobrindo Redon, Rodin, os Nabis, Van Gogh, Gauguin etc. E ao romper com o pontilhismo Matisse percebe que não pode separar a concepção da realização, como acreditava anteriormente. Desta forma afirmou que, em sua pintura tema e fundo tinham o mesmo valor, não existindo característica mais importante, só o padrão, pois a pintura é composta pela combinação de superfícies coloridas de maneiras distintas, que resulta na criação da expressão. Comparando a música à cor, acentua que se pode transpor a cor com harmonia, como o vermelho, o verde e o azul, por exemplo, e frequentemente remete à metáfora do jogo de xadrez. No momento em que abandonou as regras e normas da cor, pôs suas cores a cantar, e dali em diante compôs seus desenhos de modo a permitir à cor entrar diretamente nos arabescos, e isto significa a expressão por meio do desenho. Da fragmentação da cor veio a fragmentação da forma, do contorno. Na tela A banhista, descobriu a harmonia entre a natureza do desenho e a natureza da pintura e que elas são diferentes, mas não contraditórias: assim, o Desenho depende da forma linear ou escultural, e a Pintura depende da forma colorida.

Matisse apostou ainda na importância da escala e por isso prescindiu do papel-cartão, cuja tradição vem desde o Renascimento e projetou seus desenhos direto nas telas. O desenho em papel-cartão desaparece. Deste modo, não há hierarquização entre concepção e execução. Esse sistema projetivo tem como componente principal a ideia compositiva ou figurativa, que prescinde das condições materiais, opondo-se à visão clássica.

O termo desenho é empregado por Matisse no sentido amplo, como categoria geradora, podendo ser chamado de arquidesenho, por analogia ao conceito de Derrida de arquiescrita. Entendendo aqui, o arqui como anterior à hierarquização do desenho e da cor, quando compunham uma raiz comum. Isto significa dizer, sem a especificidade do desenho ou da cor na história da pintura, mais uma fonte geradora. Assim, o Sistema Matisse diferencia quantidades da cor de sua qualidade, afirmando que variando-se um dos seus valores, altera-se a pintura. Emprego como exemplo o empastelamento da cor ou a fluidez da tinta, que são alterados a partir do tamanho da tela.

Matisse afirma que a modulação e tonalidade podem acontecer com o peso das linhas, com hachurados e com as áreas delimitadas pelo branco do papel ou da tela. Modificou as diferenças por meio das adjacências. O importante nas cores são as relações, um desenho pode ser intensamente colorido sem haver necessidade de uma cor de verdade. Assim não é possível separar o desenho da cor. Pois mesmo sendo da mesma cor, pode se atribuir quantidades de nuances diferentes à linha. Descobre que não só o branco e o preto são cores, mas também a modulação das cores, isto é, a quantidade faz as cores agirem e este é o papel fundamental da cor, entendendo que na arte, o importante são as relações entre as coisas, e as relações de cores são acima de tudo quantitativas.

Acrescenta ainda, que a superfície ou a forma da tela é quem determina as quantidades dos matizes, dos tons, a saturação, a luminosidade da cor, a tonalidade enfim. Estes são os fundamentos de Matisse originários do arquidesenho.

Para Matisse o all over, a expressão do quadro, é determinada entre a superfície colorida e quantidades entre elas atribuídas. Já quantidade/qualidade, diz respeito ao formato da tela, que é fundamental enquanto elemento do desenho. Os quatro lados da tela ou da moldura estão entre as partes importantes do desenho, assim como o chassi, pois ele entende que interferem nas decisões a serem tomadas. Se a tela é horizontal ou vertical elas influenciam nas linhas do tema. Com isso, os trabalhos só funcionam contidos nos quatro lados da tela, e o suporte colabora com sua força. Com isso na mente, a escala, que não pode ser confundida com tamanho, é relativa. Porque ela diz respeito às proporções internas, relativas às quantidades entre diferentes superfícies coloridas ou externas relativas à tela e a parede onde será colocada.

A expressão por meio do desenho, saturação e a tonalidade das cores inseparáveis das modulações, abandono do relevo e da perspectiva, a construção espacial do quadro vem pela cor. Da mesma maneira, Paulo Gaiad, define sua obra como desenhos coloridos em busca de uma construção pela cor.

Matisse buscava o grau zero da expressão por meio do desenho, através de uma maneira simples de se expressar e praticamente elimina um dos parâmetros da arte gráfica, as variações das espessuras das pinceladas, concentrando-se na direção da linha ou forma da linha, e às vezes a linha se reduz a pontos. Na gravura o branco não é fixo, mas subordinado ao contexto, é uma relação subjetiva.

No Sistema Matisse, o sentido da linha e do contorno tornar-se-á um dos elementos importantes no desenho do pintor. Ele reiterou diversas vezes que devemos sempre buscar a vontade da linha, onde ela deseja entrar ou desaparecer. O Sistema Matisse é definido pela eliminação dos supérfluos e por uma economia radical de recursos e isso acontece por meio do desenho. Como um pintor de paredes, produz uma tela praticamente monocromática. Compreendeu que as partes da tela deixadas em branco por Cézanne tinham a finalidade de realçar a tonalidade, isto devido ao efeito luminoso do branco, e foi isso que determinou o uso de camadas finas de tintas para deixar o branco da tela visível. A isto se chama a condição de tela inacabada. Desta forma, no modo de Matisse, pintar e desenhar são uma mesma coisa. Matisse levou em conta o retângulo formado pelo papel ou pela tela, ampliando assim a noção de desenho, pois o formato do papel ou tela, função da escala, o espaçamento modulado pela quantidade e pela cor sinalizam a dívida que Matisse tinha com os tapetes e as descobertas da ciência moderna. O all over é uma regra composicional, e é dela que deriva o conceito de economia radical, do qual toda parte do quadro estará visível e desempenhará o papel que lhe for designado, seja principal ou secundário. Vê-se que o eterno conflito entre desenho e cor cessa; o arquidesenho torna impossível a separação entre eles; o desenho representa uma espécie de pintura executada com recursos limitados; a equação quantidade/qualidade permite que o arquidesenho atue com a mesma intensidade tanto no desenho como na prática pictórica.

A desconstrução de Matisse destrói o desenho, porém ao retirar os excessos e seu pensamento age através do pensamento de desenhista vindo da gravura e da litogravura, e com isto se afasta da tradição ocidental. Esta reversão da hierarquia que vinha desde o Renascimento foi revelada pela tradição oriental. O procedimento semelhante a desenhos recortados e modelados reduz o desenho à condição de contorno, como se Matisse recortasse com tesoura e colasse na tela. Isto permitiu desenhar diretamente na tela.

Esta desconstrução funciona, a partir do reconhecimento que a filosofia Ocidental Clássica, que age por oposição, ou seja, desenho versus cor, pois um termo da equação assume sempre a predominância e domina o outro. Desconstruir significa subverter esta ordem, ignorando a estrutura de oposição e subordinação. Desconstruindo a equação a partir de seu interior, fez emergir um novo conceito, liberando as dissonâncias.

Podemos considerar Matisse um (des)construtor, quando ignora as velhas rixas francesas entre rubenistas (coloristas) e poussinistas (desenhistas), acabou com um velho pêndulo da história e descobriu através do desenho a equação quantidade/qualidade a condição de intensificar a cor e relega o suposto conflito à condição de quimera.

Observando-se a obra de Paulo Gaiad, é possível perceber, os pressupostos do projeto Matisse, especialmente no que diz respeito à simultaneidade da concepção e realização no interior do trabalho como categoria geradora de uma raiz comum entre desenho e cor. Paulo, tal qual Matisse, opera em suas realizações artísticas procedimentos que advêm do pensamento plástico do desenhista, depurando desenhos, evidenciando os contornos, rejeitando a oposição falaciosa entre desenho e pintura e cor.

Em Paulo Gaiad, quantidade e qualidade da cor são cuidadosamente planejados, pois o artista entende que as proporções internas e externas, tais como o formato da tela ou o feitio do suporte utilizado, ou o local expositivo, são relativos à própria obra, e os mesmos interferem profundamente no resultado final da obra.

Assim, particularmente no que diz respeito a sua fatura, é possível perceber outras influências, para além de Matisse, tais como mencionou, como a do Informalismo norte americano, uma estética da Guerra Fria, onde todos os materiais e gestos eram utilizados, desde os materiais mais ordinários e insignificantes aos gestos de rasgar, esfolar, calcinar ou, enfim, o ato dessacralizar ou profanar os materiais na tela. O próprio artista aludiu a Antoni Tapies, como uma grande influência em seu trabalho. Observando o vocabulário plástico de Tapies, cuja experimentação foi constante, tanto na forma quanto no conteúdo, acabou por determinar uma pintura gestual e ao mesmo tempo reflexiva.

Em suas conversas informais ou mesmo em aulas, Paulo Gaiad esclarece que, frequentemente se nutre de doutrinas, estilos, iniciações, rituais, para criar um campo de força – sempre presentes em nossas vidas, ainda que muitas vezes não possamos explicar e não tenhamos consciência deles. Foi o caso da religião católica como desafeto, a vaca ruminante como inspiração etc. Para ele, a criação possui um caráter mágico, regenerador e transformador, que muitas vezes exige desordenar, fugir dos regulamentos e das ordens consagradas.

Paulo coleta objetos muitas vezes abandonados ou descartados, que retornam em suas telas, transformados em novas realidades e significados. Mas desta feita, raspados, lixados, rasgados, arranhados, violados, sofrem pinceladas de tinta, de carvão, de cola, de fogo, e em outro momento, apagamentos – definitivamente, uma profanação. Assim, os objetos coletados revivem e de certa forma recuperam os valores latentes ou ocultos. Uma vez colados na superfície da tela, as pinturas ou desenhos articulam novos signos.

Os trabalham quase sempre giram em torno da mesma inquietação, mas originam inúmeras telas através de pequenas variações, realiza saltos de linguagem, fazendo surgir abismos, vertigens, transgressões técnicas, vazio e paradoxos.



[1] Professora, Mestre, aposentada do Departamento de História da UFSC. Esta palestra foi incluída no curso Olhares Sobre Paulo Gaiad na qualidade de comunicar o “O Olhar sobre a Fatura”. Agradeço à Professora Rosangela Cherem a oportunidade de participar e contribuir com o evento.

[2] Alain-Bois, Yve. Matisse e o arquidesenho. In: A pintura como modelo. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: WMF / Martins Fontes, 2009, p. 81.

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